Monday, August 27, 2007

Normal Anormalidade

Já viajei por aí muitas vezes. Fui pra lá, pra cá e pro lado de lá. Em toda excursão sempre vi coisas interessantes. Muito interessantes. Foi assim quando fui para os EUA pela primeira vez, com meus 16 anos. Manhattan parecia agressiva e cinza. E olhe só, não era nem perto paranóica como é hoje, com atentados e suspeitos. Vi um mundo diferente do que eu vivia, e sinceramente eu pouco entendia. E hoje voltei de um espetacular espetáculo da Broadway.
Foi assim também com meu pai na Europa. Coisas eram mais diferentes ainda, afinal, alem de estar com o meu pai, que era um sujeito para lá de não convencional, eu estava com 19 anos no auge da minha rebeldia contida e inicio de universidade. E adivinhe, vi o mundo com outros olhos. Visitei países com cultura totalmente diferente a nossa conhecida brasileira. Aconteceu de novo, quando fui com a minha irmã de mochila pela Europa mais uma vez. Lá no Piccadilly Circus, em Pisa ou Champs-Élysées sempre um novo mundo. Em Tokyo, tive a sensação de ser surdo, mudo e analfabeto quando lá cheguei, afinal, não lia, não falava, não entendia absolutamente nada. 36 horas de viagem foram suficiente para colocar um neurônio longe do outro e acabar com a minha sinapse. Não preciso dizer que era tudo diferente. Estive até na casa dos hermanos ali do lado e via a Casa Rosada e até hoje não entendo porque é que eles se sentem europeus.
Mas também foi diferente em Manaus, onde as àguas do Negro e do Amazonas não se misturam. Ou em Belém, onde a calçada tem 40 cm de altura e a manga pode cair a qualquer momento na sua cabeça. E logicamente, a fantástica viagem de Jeep ao interior de Minas, no meio do Brasilzão. Cuspia um tijolo no final do dia, de tanto pó, mas saboreava a comida mineira do jantar.
E em todas minhas andanças vi diferente coisas e mundo. Coisa boas e ruins. As boas são guardadas na memória e nas fotografias. As ruins só servem para comparar. E eu não gosto muito de comparações. Mas é impossível não faze-la.
Hoje vivo no Canadá. Um país misturado entre a cultura americana, soberana em quase todo mundo ocidental e a européia. A Rainha ainda manda. E tem gente com o sotaque britânico. E aqui, logicamente vejo coisas bem diferentes. Calor é qualquer coisa acima de 24 graus e frio só abaixo de 10. Muro não vejo. Aqui eles estão a sociedade é intolerante a violência crescente. Estão preocupados. Um assassinato é muito, um drogado é muito, meia morte é demais. No Japão, o ministro da defesa, renunciou ou renunciaram com ele, porque falou abodrinha sobre a história da II Guerra e das Bombas “H”.
Ai fico vendo o Brasil. Um pandemônio. Li outro dia, que policiais estão fazendo milícias nos morros cariocas, expulsando os traficantes e tomando os lugares deles, e estão faturando horrores. Vejo sempre a manchete de um ou mais corpos. Ouço, inclusive por aqui, frases como “se pudesse roubaria um pouco também” desferida por algum compatriota esperto. Ministro que rouba. Senado que faz falcatruas. Avião que cai, e o único que cai com ele, é o dono do bordel. Mas o bordel de Geane, em Brasília continua funcionando a todo vapor, com a rapaziada fazendo trenzinho e troca-troca, enquanto o resto vai se fudendo, relaxando e gozando. É engraçado porque eu daqui, vejo e escuto, mas o Presidente não, e nada faz, mas continua ali, intacto.
Parece que no Brasil, o que é para o resto do mundo anormal, no Brasil é normal.
Aqui quando alguém diz que a cidade esta violenta, mesmo com o índice baixo, se tiver um Brasileiro na roda, ele vai rir dizer que não é, afinal, no Brasil, só o transito mata 75 mil. Assaltos, seqüestros, homicídios, corrupção é parte do cotidiano nacional. É como se um corpo morto estivesse estirado na avenida mais importante da cidade, e todo mundo só pula, afinal é só mais um.
O que aprendi andando pelo mundo, vendo diferentes sociedades, umas mais avançadas (sei lá o que é que quer dizer isso, se é em termos de tecnologia ou avanço do ser humano), outras menos, é reconhecer as diferenças entre elas. Tanto o norte europeu ou o sertão mineiro, são maravilhosamente diferentes. E jogar papel no chão não é normal, nem pular o morto, mas ai, depende de onde você estiver.


Música: Home - Michael Buble - It’s time
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 27 August 2007

1 comment:

C. Buratto said...

Oi F Flitz voltei de ferias!
O ponto é: Are they crazy or am I?
Concordo que nao é normal jogar papel no chao pra nao falar em pular o morto em nome do pai do Filho do ES...
Meu pai me dizia (é nao interprete como uma frase conservadora...) que a moral è elastica, voce vai se acostumando com o anormal e acoisa vai tomando dimensoes assustadoras!
Cb