Friday, December 12, 2008

Pausa de Quatro Tempos

Escrevi sobre um monte de coisa. Política. Romance. Vida. Opiniões banais da vida cotidiana. Das coisas que nos cercam. Das diferentes realidades que vivemos.
É, tem um bocado de coisa ai.
Falei mal do Lula. Detonei com o Bush. Vi o Obama vencer.
Briguei com Juiz bunda mole. Já fui clonado, e inserido em jornal de renome.
Fiz piada. Fiz chorar. Contei das minhas lembranças. Falei do futuro.
Nunca reli tudo que escrevi, e acho que nunca vou fazer. Sei que têm gente que já releu um monte de vezes...
Já gerei ódio e devo ter leitoras-amantes-secretas.
Aqui já falei quase de tudo. Sem papas na língua.
Mas esta faltando um tópico. Vem me perseguindo, martelando minha cabeça. Toda vez que vou escrever sobre isso, pronto, alguma coisa acontece!
Eleição. Seqüestro. Guerra. Greve. Bolsa que quebra. Pancadaria na esquina. E eu, ai, desbundo e não escrevo.
Resolvi deixar tudo isso de lado e partir pro abraço, como diria um “jogadô” de futebol da várzea, lá de perto de casa.
Pois é, dizem por ai, que foi há 50 anos que inventaram a Bossa-nova. Falam que foi o Tio João, não o arroz, mas o Gilberto. Uns dizem que foi outro, talvez Menescal ou Jobim.
Eu não sei ao certo quem é que foi, só sei que foi. E é isso que importa.
A bossa era uma e vieram com uma outra tal, nova. Virou bossa-nova. E agora esta cinquentona, mas enxutona e nem mandou por peitão de silicone e nem botox. Do banquinho e violão, a roda de samba e a influência do Jazz.
O negão americano sambando em síncopes e a mulata sapatendo em tercinas alternadas bemolizadas na terça e quinta - a blue note.
A bossa-nova, influência até o jazz, no reverso do caminho. Imagine só você, que agora a onda é sincopar a batida do jazz, colocando o swing do samba. Música contemporânea. A bossa que influência a MPB. MPB de Elis, Chico, Gil, Caetano, Marisa, Ana Carolina... Mesmo até quem não aceite, o Roqueiro Tremendão e o rock’n’roll de Roberto Carlos tem suas pitatas de bossa.
Não dá pra separar tudo isso dessa coisa chamada música. Parece que, tudo esta separado mas esta tudo junto.
Mas música é assim. Não é uma coisa só, nem um só organismo. É um órgão universal multifacetado. Porque não importa onde é que seja, que você esteja, sempre haverá música.
Pode ser Mozart e Betoween ou modernista Villa-Lobos, arrepiando o clássico. Caveleira e Ozzy em suas cabeleiras. Lennon e Paul. Zé Mineiro e Marciano. Dire Straits e Supertramp. Chet e Miles. Parker e Coltrane. Vaughan e Krall.
Tem sempre aquela música, naquele momento. Música parece ser para o ouvido, mas não é. Música é um embolado.
Pode ser cantarolando andando por ai, com um violão em casa ou assobiando sem se dar conta. Está incorporada e sai sem exorcismo.
Todo mundo têm “a” música. A música do casalzinho apaixonado no coral. A música do ódio mortal, do fim daquilo que parecia infinito. Música da vitória do time. Da derrota. Daquele beijo. Daquela gostosa. Da infância. E da velhice.
Tem até a ausência da música, é o silêncio. Que marca também, afinal, naquele dia, naquela hora, o que faltou e marcou foi não ter aquela música.
Música tem gosto, cheiro e tato.
Música é assim, inspira, respira, transpira, chora, ri... Pouco importa quem foi que criou o jazz, o clássico, o punk-rock ou a bossa-nova. É o caso que, o começo não implica no fim.
Uns cantam. Uns tocam violão. Hermeto toca chaleira. Índio toca bumbo. Uns pandeiro. Outros caixa de fósforos. E todos nós batemos palmas.

Música: The Gentle Rain - Jim Tomlinson & Stacey Kent - Brazillian Sketches
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 12 Dec 2008Aqui a música desse artigo

Create a website with Quackit

Wednesday, November 19, 2008

Obama esta para Che

Pronto! Virou moda. Confirmada a vitória triunfante do Pretinho Básico, todo mundo quer vestir! Não importa se a festa é de gala, formal, informal, casamento, velório, balada brega, balada chique, praia com ou sem sol, reunião de família, exame de próstata, orgias na Casa ou um simples passeio pelo shopping center da cidade ou parque. Não importa onde, tem sempre um de Pretinho Básico.
Agora depois da eleição confirmada. Algumas aparições na tv, jornal e lógico internet, o Obama virou mania. Virou Obamania.
Cabe a esse sujeito ai, preto escolado de Harvard salvar o mundo, deles mesmos. A vitória obamica representa a frustração americana e a vontade de permanecer unipotente. Os americanos estavam descontentes para onde o Governo Bushista estava indo. Bush, armou o circo para ser o palhaço do mundo por um bom tempo. A estratégia era manter-se por mais tempo, mas não deu. A lona caiu. Desde 9/11, teorias conspiratórias, reforçam que a fatídica investida no Iraque foi uma armação. Sem 9/11 Bush teria um único mandato. Os democratas deram o troco e derrubaram Wall Street, e criaram a Obamania.
Obama parece ser agora o cavaleiro das cruzadas. É a esperança de mudança, e mudança aqui, significa, manter-se no posto de potência global. É visto pelas massas como o anti-herói mulato. O super-héroi que vai trazer de volta a prosperidade americana. É o guerrilheiro da Casa Branca, vestido de paleto azul marinho e gravata vermelha.
Talvez represente agora o novo rebelde. O rebelde que luta para manter a estabilidade, sustentar o capitalismo e fortalece-lo. E talvez seja isso mesmo que o mundo todo quer, e não quer mais, rebeldes com barba e estrela vermelha.
E como rebelde da modernidade, Obama esta estampado em dúzias de centemas de camisetas, com sua cara. I love Obama, Obama substituiu Marilyn de Andy Wharol ou uma simples camiseta preta com um sorriso branco. Como Che, o rosto de Obama esta nas camisetas pelo mundo. Talvez em alguns bons 40 anos, os jovens, sem saber bem quem foi Obama, mas usarão a camiseta com o rosto estampado. E se perguntarem para eles quem foi Obama, responderão:
- Hummm, sei lá, era jamaicano ne?! Sei que ele foi o cara que salvou o capitalismo.

Música: Dear Mr. President - I’m Not Dead - Pink
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 19 November 2008

Aqui a música desse artigo


Create a website with Quackit

Wednesday, November 05, 2008

Oba! Oba! Oba(ma)

Pronto! Acabou! Acabou a disputa pela a cadeirinha mais poderosa do mundo. Finalmente, depois de meses de disputas, o pretinho básico, levou a parada contra o dinossauro branco.
Oba! Oba! O mundo agora tem Obama!
Obama, o tubinho preto, não é tão básico assim. Primeiro venceu a Dinastia Clinton, e convenhamos que não é uma batalha para ser menosprezada. Talvez tenha sido mais acirrada que a disputa com o McCain. Bater o retrógrado e mumificado McCain pareceu-me mais fácil que bater Hillary. Dizem que é covardia bater em velho, caduco e manco.
O negócio agora é o que vem por ai! Obama tem a maioria no Congresso e no Senado, o que dá a ele um poder que poucos tiveram. Entra com o apóio de uma grande parte da população. A democracia Americana mostrou-se eficiente.
Entra também em um momento complicado da tal crise econômica mundial, que me cheira muito mais uma jogada política, estrategicamente calculada, com perdas e danos, previamente acertados, como intuito de tirar os republicanos da cadeira. Afinal o que são alguns dólares no ralo, se minha caixa d’água ficar cheia já já. Que rolem umas cabeças, que não a minha e tá tudo bem.
E nele também sentam algumas responsabilidades, frutos da sua própria campanha. É a esperança de muita gente que ele mude a política mundial. Que tire as tropas da Guerra que não os pertence. Que faça a economia crescer e que tire da merda que estão atolados os EUA. E na rebarba, ajude os países em desenvolvimento como o Brasil.
Obama é a representação em carne e osso, de Martin, o marco do movimento negro. Mostra que mesmo que demore, lutar pela mudança, mesmo que pareça impossível e inviável, por muitas vezes, surte efeito, mesmo que retardado. McCain e a Klux Klux Klan, vão observar de longe, se remoendo e roendo as unhas de raiva.
A representação da mudança parece ser tão assustadora, que especulações da radio-peão, começaram já, a assassinar Obama. Talvez aconteça mesmo, afinal explodiram a cabeça do Kennedy no colo da Jackeline, e não foi porque ele comeu a Marilyn. A mudança é um assunto assustador, e depende de onde se mexe, além de medo, cheira defunto.
Obama não é Deus. Não é nem de longe Santo. Não fará milagres. Não fará chover na seca, nem conterá furacão. E para nós, míseros espectadores do mundo, nos resta esperar que ele supra as expectativas, faça um governo generoso, não só com os Americanos, mas com o resto do mundo, e não destrua o mundo, como W Bush o fez.

Notas Hoje 5 de Novembro foi a Eleição presidencial nos EUA
Música: Tomorrow, Duffy
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 5 November 2009

Aqui a música desse artigo

Create a website with Quackit

Wednesday, September 10, 2008

Não Voto. Justifico.

Parece que o mundo todo resolveu exercer o direito democrático ao voto. Começou com a corrida à Casa Branca. A disputa entre os Democratas Obama e Clinton. Tudo preto e branco. Um verdadeiro show, para ver, quem é que iria finalmente ao páreo. Deu Obana, yes we can! Agora o preto-elite irá concorrer com o dinossauro branco.
O cavernoso McCain, talvez nascido do mesmo embrião, sendo assim, gêmeo do macaco branco Bush, esta nessa ai, para manter as coisas como estão ou talvez piorá-las. Quer uma ou mais guerrinhas, para poder dar a desforra, aos vermelhos viets, que o prenderam durante a investida cretina no chuvoso sudoeste asiático, em meados de ‘70. Vai manter a guerrinha no oriente-médio, controlando o preço do óleo. Já pediu para o tão maluco quanto, Putin, cutucar as republiquetas do subúrbio russo, para garantir, ao menos uma faisquinha, com meio pé na Europa.
O mesmo acontece no Canadá. Começaram as campanhas para Primeiro Ministro, súdito da rainha Elizabete II. Aqui, como sempre, as coisas são menos intensas do que lá dos primos do sul. Os debates e provocações, acusações na tv e chacotas são comum em qualquer campanha política. Aqui não seria diferente. O atual Chanceler, Harper, usa a investida no Afeganistão para abocanhar alguns votos, uma vez que a população desaprova o uso de sangue canadense para a construção do país do ópio. Harper que não é bobo, promete tirar as tropas a partir de 2011. O que ele não conta, é que tudo depende de que vencer na terra de tio Sam. Aparentemente, Harper deve torcer para Obama, mas parece mesmo gostar da gang do Bush.
Uma coisa que aqui é diferente do Brasil, é que só vota cidadão. É, é preciso ser cidadão para votar e se quiser. Para canadenses, exercer o direito de voto é uma coisa muito importante. Mas nem todos querem ou se preocupam com isso.
Foi então que eu me lembrei que estão por vir eleições no Brasil também. O mundo resolveu votar. Começou o programa eleitoral gratuito (e obrigatório) nos meios de comunicação. O festival de aberrações e falta de seriedade da sociedade. O reflexo da sociedade brasileira e o despreparo democrático. Vereadores com idéias tão estapafúrdias quanto seus nomes de legenda. Prefeitos sem o mínimo preparo. A propaganda na tv parece um álbum de figurinhas das de filmes de ficção científica trash B. Só falta colocar uma lona e comprar a pipoca para chamar de circo. Se bem que, se colocar uma luz vermelha, vira puteiro.
O Brasil parece estar a deus-dará. Vale tudo para entrar no sistema do governo. Talvez a melhor maneira de levantar uma grana, ser conhecido e não fazer nada. É um problema tão crítico que não se sabe bem, onde começa, muito menos se tem fim. Do vereador banguela ao engomadinho-playboy, o importante é pisar lá.
Talvez o grande problema é a obrigatoriedade do voto. Na democracia-obrigatória nacional. Voto obrigatório. Propaganda obrigatória. Direito obrigatório. Já falei muito disso aqui.
Eleição no Brasil é como Copa do Mundo, uma vez de tempos em tempo, com festas e bandeiras na ruas, e ninguém se lembra mais da escalação do time campeão, mas também não estamos nem aí, em 4 anos tem outra. É a lambança nacional que reflete o contexto de desordem que vive o país. Veja o Rio e a guerra civil entre traficantes, policiais (bons e ruins) e a população (adicta ou não). Isso sem contar nos currais de que não se tem notícia.
Eu estou em minha cruzada Quixotesca, lutando contra o cata-vento da democracia-obrigatória. Espero que um dia, a maturidade democrática mude os viés da política nacional. Provavelmente, não estarei aqui para ver. Como sou contra a obrigação de exercer meu direito, não voto. Justifico.

Música: 300 Picaretas - Paralamas do Sucesso
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 10 September 2008

Wednesday, July 30, 2008

Rá tá tá

Luzes piscam alucinadamente. Explosões. Barulho. Cheiro de borracha queimada dos pneus ralados no chão. Tiros. Sirenes. E heróis que nunca morrem. Em suas motocas maravilhosas ou colocando o boné pra trás, resolvem crimes insolúveis e prendem os mais diversos tipos de mau caráter.
Talvez um Magnum* resolva tudo. Ou o intrépido herói salva a mocinha, sempre linda, das mãos inescrupulosas do gordo e suado com charuto na boca. Tudo com a trilha sonora empolgante. O sonho de ser herói é um barato curtido na sala escura do cinema, e acaba quando a luz acende.
Não são balas de festim. A mocinha não é linda. A motoca é surrada e o boné é velho e suado. A viatura não tem pneu. Não existe o Magnum. E o bandido?
No Brasil sem dono, ninguém sabe mais quem é quem. Dos criminosos milionários, que reclamam de serem algemados aos pés-de-chinelo, muito loucos de crack. Do juiz ao bandido de farda. Corruptores e “corruptados”. É o bang-bang à italiana.
É momento crítico onde a população parece confiar mais no bandido. As suas funções são claras: matar, roubar e infringir a lei. Os chefões do tráfico ainda ajudam a sua comunidade, desde que siga a lei-fora-da-lei, ou morre. Já a polícia, ninguém sabe ao certo o quem é o que.
O total despreparo do soldado. O baixo soldo. A falta de amparo das instituições corrobora com o quadro digno de um filme de Zé do Caixão.
A discussão sobre a segurança pública é inevitável. Morrem como se estivéssemos em Guerra, talvez no Iraque ou Afeganistão. Mas não é, é Rio e São Paulo. Pode ser pior: lá no Oriente Médio pode ser mais seguro e eles estão em Guerra.
Todos nós queremos poder ir ao caixa eletrônico, parar no semáforo vermelho e ter a vida tranqüila, sem se preocupar muito se vai voltar vivo pra casa.
Precisamos da polícia mais equipada e preparada, não há dúvidas. Precisamos pagar mais a ela também. E não podemos esquecer que o órgão é feito de homens. Matéria essencial.
Não há preparo do ser humano. Não só da polícia, mas do todo. Precisamos mesmo é melhorar o ser humano nacional. Educar. Dar a base do berço. Aí quem sabe, um dia, polícia passara a ser polícia e bandidos serão exceções, e eu poderei ir ao cinema de madrugada, ver meus heróis preferidos, e melhor, voltar pra casa, para contar a história pela manhã.

Notas: Magnum é o revolver do Dirty Harry, imortal personagem vingador de Clint Eastwood.

Música: SWAT - trilha sonora

Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada D30 July 2008

Wednesday, July 09, 2008

Taliban, pero no mucho

Alguma coisa deve acontecer entre os paralelos 0 e 35. Pode ser o calor que cozinha o cérebro de alguns. Às vezes é em clima árido, desértico. Outras vezes em clima tropical amazônico, que de tão úmido parece ser uma sauna. Em um nunca chove e quando chove o povo não sabe se diz Aleluia ou se chora, uma vez que é torrencial e alaga tudo. No outro chove todo dia e às vezes, o dia todo, todo dia. O povo já acostumou andar molhado.
O clima amazônico é realmente diferente do clima do deserto. Mas parece que as diferenças acabam ai. Parece que nessa faixa, compreendia pouco acima e pouco abaixo do equador, a pressão dos ventos, marés, sol é maior. Deve gerar o comportamento semelhante.
Na floresta amazônica, terroristas da milícia armada colombiana, as Farc. No deserto afegão, os terroristas extremistas talibans. Um diz que luta pela igualdade e dignidade do povo. Outro por Alá e o mundo islâmico. Não medem esforços para que seus objetivos sejam atingidos. Em nome da Causa, o meio justifica o fim. A estratégia é esmagar o que for obstáculo. Seqüestram, matam, atacam, e que morra quem se meter no meio ou que estiver no meio, por acaso, se assim for o caso.
Na luta contra terror, Bush, o macaco branco americano, começou a Guerra infindável no oriente médio. Ele queria mesmo é o petróleo. Agora lutam lá, sem saber porquê. O mesmo acontece no Afeganistão, que entrincheirados nas Colinas, o talibans planejam a sua conquista do Mundo. Me pergunto se Bush, vai mandar os Marines para a Colombia. Já que terrorista é terrorista e as Farc são farinha do mesmo saco dos talibans. Diferem é que a farinha das Farc é de cocaína e do Taliban é de ópio. Mas se igualam por serem motivados pela lógica mercadológica do tráfico de drogas e pelos lucros assombrosos desse mercado.
Enquanto o mundo assiste as atrocidades da Guerra, a morte de soldados em luta contra o cata-vento, a fuga espetacular do cativeiro, a explosão na embaixada, atentados contra a existência da vida, como em um filme de Hollywood, os terroristas talibenhos e das Farc vão conquistando o mundo, usando da estratégia mais sorrateira possível, desviando o olhar para a pirotecnia bélica enquanto dominam o mundo pelas narinas – dos outros.
Música: Je t’amie a la haine - Soprano
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 9 July 2008

Friday, May 30, 2008

Cá e Lá

O frio na barriga estava comigo. É sempre assim, nesse hiato entre lá e cá.
Cheguei lá. Disseram-me que estava frio. Eu suava.
Deveria ter ido de chinelo e bermuda. O casaco já fora esquecido na mala. Para mim estava quente, mas vi gente de casaco de inverno.
Estranhei o som na rua, e me senti estúpido. Era um sujeito qualquer falando português. Fiquei meio confuso, mas talvez tenham sido os perfumes que cheirei, no mercadinho do aeroporto.
Foi assim que cheguei de volta ao Brasil. Depois de alguns anos, pisei na Terrinha.
Dessa vez não foi suficiente, o tempo foi muito curto para tudo que precisava e queria fazer. Tive que optar, e optei por fazer o que dava, sendo essa a minha única opção.
Mas pensando bem, o tempo nunca será suficiente. É como quando vamos viajar para algum lugar, e sempre tem uma ou outra coisa que não deu para fazer ou ver, ou aquela preguiça de voltar a rotina, e querer ficar sentado à beira da praia com os pés no mar, dizendo estar vendo o por do sol, mas na verdade estamos vendo mesmo são as mocinhas correndo no final de tarde. Sempre digo que essa é a melhor desculpa para voltar: deixar algo por fazer.
Mesmo assim, quando cheguei, parecia que tinha estado lá, ontem. Mas não foi. Fazia tempo que não pisava lá.
Fui paparicado por mamãe. Tive que maneirar na comida, já que tudo que eu gosto, estava lá, na minha frente. Andei pelo jardim, e relembrei da minha infância em casa. Parece que quando estamos longe por tanto tempo, essas lembranças voltam mais fortes.
Vi meus sobrinhos pequeninos e sorridentes. Conversei com minha irmã. Fomos ao shopping, e ela sentiu-se a mãe mais orgulhosa do mundo, a cada elogio aos gêmeos que estavam nos meus braços. E é engraçado carregar neném no colo, a gente faz careta, baba, fala mole, e se esquece que todo mundo tá olhando para você, com cara de bobo.
Dei risada com minha tia-avó, já tão velhinha, mas com seu humor sarcástico e irônico.
Revi pessoas queridas, que entram em nossas vidas meio sem querer. Tomamos café.
Revi alguns poucos amigos do coração. O tempo foi suficiente para um forte abraço e um beijo, mas insuficiente para colocar a conversa em dia. E infelizmente não consegui ver todos.
Separei um tempinho para ir aos bares que gosto. Afinal, neles escrevi muitas das minhas histórias. É muito bom ser relembrado por todos lá.
E no meio disso tudo, também conheci gente nova. Gente bonita e de bom papo.
Mas sempre tem a hora de ir embora. É a hora que se pensa em ficar.
É a hora que dá aquele gostinho de quero mais. E é nessa hora que ponho a saudade de lado e a deixo lá. E entro no avião já esperando o próximo frio na barriga


Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 30 May 2008

Tuesday, May 06, 2008

Férias em Casa

Lembro da primeira vez que tomei um avião. Eu era pequeno. Sentei ao lado de meu pai. Naquela época ainda podia-se fumar na cabine e os talheres eram de metal. Não sei ao certo para onde íamos e realmente pouco importava, estava em um avião. Sentei na janelinha e vi as coisas diminuírem até que as nuvens apareceram. E foi emocionante.
Lembro também, que anos depois, iria sair do país pela primeira vez. Iria de PanAm. Norte-América me aguardava e ficaria um tempo na casa do meu grande amigo.
Era a aventura de ir sozinho para terras desconhecidas, de idioma estranho e mulheres sem bunda e de peitão. Não sabia como seria, não tinha idéia, mas sabia que seria uma aventura bacana. E foi.
Depois fiz muitas outras viagens pelo mundo. Rodei a Europa de mochila. Eu e minha irmã levantávamos o dedo, e pra onde soprava, era para lá que iríamos. Conhecemos pessoas no percurso, que nunca mais vimos. Conhecemos um monte de lugares, e logicamente um monte de fotos e histórias. Fui outras vezes ao velho continente e a América. Fui ver o primeiro raio de sol lá no Japão e vi o sol da meia-noite na Suécia.
Minhas férias eram gastas rodando o mundo fora de casa. Acabava uma viagem, pensando já, na outra. Férias são para isso. Ir conhecer coisas e expandir o conhecimento e a cabeça. Ir sempre para algum lugar diferente, voltar e ter um monte de coisa para contar.
Férias...
Agora alguma coisa mudou. E mudou muito. Estou saindo de férias, apesar de ser curtinha, de 7 dias, são férias. Não vou a um lugar desconhecido. O idioma é o meu. Os costumes eu já sei. Sei o que vou pedir para comer. As mulheres terão bunda, e algumas já mandaram por o peitão. Será tudo diferente das férias que tive.
Vou de férias de volta para casa. Parece ser estranho dizer que, suas férias serão de volta para casa. Mas isso é um fato de quem não mora mais onde nasceu.
Hoje, ir de volta pra casa é a aventura de rever a mãe, de ver quem você nunca viu antes, mas já os conhece. É a aventura de rever os amigos e saber das histórias que você não sabe. De contar as aventuras que teve. É ir de encontro ao novo-conhecido.
Mas mais que isso é ir de encontro com tudo aquilo que você deixou para trás. De balançar ao ver tudo aquilo junto. De pensar na vida e gastar uns segundos, perguntando-se se você fez ou não certo, sabendo que essa resposta não existe. Ir de volta pra casa é tão emocionante como a minha primeira viagem de avião.

Notas: Faz tempo que não volto para “casa”. Desde que sai, há 2,5 anos é a primeira vez que volto.
Música: Mudaram as Estações - Cassia Eller
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 06 May 2008

Thursday, April 17, 2008

Livro em Branco

Aconteceu em meados de 70, quando eu usava o cabelo em forma de tigela. Era primavera, como hoje, só que no hemisfério do sul e certamente, estava mais quente. Não me lembro quantos anos tinha, estava na escolinha. Sentado em um carrinho de madeira, dei com a testa na quina. Sangue para todo lado, e uma cicatriz na face. Lembro que chorei. Acho que chorei mais de desespero de ver minha irmã chorando ao me ver, em todo aquele sangue, do que de dor, porque não me lembro da dor. Mas me lembro do choro. Tenho então 13 pontos na testa. Nessa época, lembro das minhas brincadeiras na rua, de subir na árvore e correr pelo quintal, com meu fox paulistinha, Bilú. E Bilú, com todo seu porte de fox paulistinha, era fiel e feroz. Uma fera de 5 quilos.
Já nos anos oitenta, década de ouro, destruí uma bicicleta caindo de fuça no chão. Estava com um amigo, e sentado na poça de sangue, pedi que fosse chamar a mãe dele, já que o hospital me esperava mais uma vez, e talvez se tornasse rotina em minha vida. Logicamente, alguns pontos, e a cicatriz na cara. Mas esse período não deixou só marcas de acidentes, foi marcado pelas bandas de rock, pela adolescência e descobertas.
Em oitenta, ouvindo os então novos, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Blitz e tantos outros do rock nacional, fazia viagens com a escola e acampamentos com meus amigos-escudeiros, em lugares remotos, onde quanto pior, melhor. Fui à praia de ônibus, em uma saga aventura. Começaram as paqueras, e descobri que meninas não eram tão chatas assim e que no fundo, gostava delas. Romancezinhos ingênuos. E o drama da adolescência.
Quando vi, duas décadas tinham se passado, e eu já tinha uma porção de histórias para contar. Mas em 90, no auge da juventude, sem tanta ingenuidade dos 80, aconteceram coisas como vestibular, festas de gente grande, inúmeros dias de ressaca, a noite anterior certamente foi uma festa, e não necessariamente festa em final de semana, porque todo dia, era dia de festa, e que festas!
Fui também conhecer o mundo. Rodei de mochila por ai. Visitei lugares e mais lugares. Tem lugar que nem sei onde é que estava, como a vez que tive que negociar com um policial de fronteira, de um país do leste europeu, meu passaporte de volta. Ou no Japão, quando vi o monstruoso e gigantesco Monte Fuji. Cada viagem daria um livro.
E logicamente com tantas viagens e festas, romances e mais romances, amores e desamores tinham que acontecer.
Lembro de Beatriz, menina-moça que me tirava do sério com suas formas. Menina nem grande, nem pequena. Média. Seios médios e bunda média. Tudo médio em harmonia. Tinha tudo ali, a ingenuidade pós-adolescência e com a sensualidade de uma mulher. Era uma coisa de enlouquecer qualquer moleque no pico da porra na cabeça.
Ana e suas coxas grossas, lábios carnudos e batom vermelho. Uma mulher. Era mais velha que eu, e não se importava. Luiza e seu beijo espetacular e o amor infinito, até que acabou. Da paixão avassaladora por Mariana, que o fogo consumiu. Do namoro tranqüilo com Carolina. Do romance secreto que tive, e sou impossibilitado de revelar o nome, mas posso dizer que ela era linda, de parar o transito. Uma delícia de mulher com seu corpo maravilhoso, peitos, bunda, cabelo, beijo espetacular e além de tudo, éramos grandes amigos.
Ou então dos diversos casos casuais, entre festas e fogos, que contam cada um, um romance passageiro, que talvez, fosse só de uma noite trancado em um quarto de hotel. Paixões de momentos e instantes.
Agora, 30 anos depois da testada que dei, continuo a colecionar pontos e cicatrizes. Continuo a viajar pelo mundo de mochila. Ouço ainda as bandas de garagem dos anos 80, elas continuam muito boas. Continuo tendo romances e mais romances.
Isso tudo porque acredito que a vida é um livro em branco, e resta a nós escrevermos as histórias. Minhas histórias são do passado e do presente e agora vou escrever histórias para o futuro.

Música: Será - Legião Urbana
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 17 April 2008

Saturday, March 15, 2008

A Puta

A hipocrisia transborda pelas bordas do mundo. Parece ser uma má, praga ou simplesmente uma questão humana. Pelo mundo todo, ela cruza fronteiras parecendo ser um vírus “internético”.
Vejamos a guerrinha que os nossos vizinhos queriam armar. Chávez, o demônio da Venezuela que pôs lenha na fogueira e ainda jogou gasolina. Alimentou as FARC com dólares, para provocar os EUA. Maluco, sem muito que fazer, acha que uma guerrinha no vizinho, seria uma boa diversão.
Já a Colômbia quer que as FARC sumam. Contudo, não há política interna suficiente para isso, e os traficantes continuam no comando. Cutucaram o Equador, que tava lá, de olheiro. Uns traques ali, outros aqui, ficou tensa a situação. O Brasil se meteu no meio, para separar a briga de comadres. Foi da turma do “deixa disso”, famosos em pancadarias de boates. O índio-boliviano Morales não participou dessa. Estava fumando um baseadozinho, para relaxar. E no final, como em briga de covardes, acabou todo mundo falando mal um do outro e descobrindo que todos eles têm a mesma mãe, e na maior hipocrisia, acabaram com tapinhas nas costas.
Mas a hipocrisia veio à tona, aqui na América do Norte.
Com as eleições americanas por vir, essa questão fica mais evidente. Na disputa pela disputa da Casa Branca, tem um preto e uma branca. E vale tudo, sem ser preto no branco, para chegar lá.
Foi numa dessa que o governador de NY caiu. Defensor dos bons costumes, batalhador contra a corrupção e blá blá blá, foi pego com batom na cueca. E batom na cueca não tem explicação. O ex-governador fazia parte do luxuoso cenário upper level da luxuria novaiorquina. Democrata, partidário à branca, a mesma que apoiou o maridão, no famoso boquete dos anos 90, gastou uma fortuna com as mocinhas, que não eram da casa de Geane, mas não menos santas.
Vamos ver se esse costume Democrata de promover orgias, boquetes e festas do cabide continuará com próximo presidente, seja Obama ou Sra. Clinton. Torço para Clinton, porque a festa será muito mais interessante.
Se o Republicano George W. Bush tivesse uma Lewinsky, uma rede de scorts ou até mesmo Geane, o mundo seria muito mais feliz. Tá na cara que ele não transa faz tempo, isso é, se um dia, o fez.
Agora hipocrisia é a que o governador caiu, porque a mocinha brasileira abriu a boca. E não foi para um boquete, não dessa vez. Presa por tráfico e prostituição, ela contou tudo ao FBI. E como boa garota de programa, não fez por amor.
Ela vai sair na Playboy logo mais, ou lançará um livro, coisa da moda no nicho. Se a fama de brasileira no exterior e de ser puta, agora então, retificou, infelizmente.
Mas pergunto: se a prostituta brasileira em NY conseguiu detonar o governador, porque é que as garotas de Geane não abalaram em nada o governo brasileiro?


Música: The Pennis Song - Cameron Diaz, Christina Applegate, Selma Blair - Sweetest Thing
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 13 March 2008

Sunday, March 09, 2008

Um Restaurante


Domingo. Um dia de sol. Frio é verdade, mas um dia bonito. A neve esta acumulada da tempestade dos dias anteriores. Resolvi passear com minha bicicleta e desfrutar do dia ensolarado. Pedalava pela cidade e me deparei com um restaurantezinho com um nome muito familiar à mim.
A lembrança dos meus dias de moleque vieram à tona. Dias em que éramos preocupados com a peleja da sexta, dos Camisa e dos Sem Camisa, e não necessariamente jogávamos sempre para o mesmo time! Até montamos um time que nunca perdia, como consta nos autos secretos. Voltam lembranças das brincadeiras e a amizade inseparável. E claro que não deixaria de me lembrar da nossa vontade de mudar o mundo. Minha galera era talvez, politicamente correta demais para pensar em uma revolução armada, mas éramos insatisfeitos como todo jovem cheio de energia, queríamos o mundo melhor.
É impossível não lembrar das histórias que escrevemos sentados na mesa do restaurante, conspirando à favor do mundo em meio a piadas e conversas de botequim. Na mesma mesa conversávamos sobres os amores e desamores, entre um copo de cerveja gelado e um bom petisco. Incontáveis noites e memoráveis histórias.
Mas também me lembrou das vezes, que ia ao restaurante com meu pai, e como bons garfos comíamos, e como comíamos bem. Lembrou-me das muitas conversas que tive, sentado à mesa, quando conversávamos sobre tudo, e do quanto aprendi com ele, e do quanto ensinei. Lembrou-me das vezes, que levamos para casa, coisas do restaurante para minha mãe, e como ela gostava! Na mesa do restaurante, aprendia a cozinhar com minha mãe. Sei cozinhar, mas não chego perto da sua deliciosa comidinha.
Esse nome me trouxe mesmo muitas lembranças e muitas saudades. Lembranças dos que lá deixei e conheço, e até uma saudade estranha, daqueles que eu não conheço como os filhos dos meus queridos amigos e meus lindos sobrinhos recém-nascidos.

Notas* Arabesk era o nome do restaurante do meu grande amigo Carlão, o qual freqüentávamos assiduamente. Arabesque, foi o restaurante que passei em frente, nunca fui lá, e nem sabia que existia.

Música: Take the way home - Supertramp - Classics Vol 9

Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 9 March 2008

Tuesday, December 18, 2007

Mulheres Boas

Outro dia ouvi uma discussão sobre mulheres. O objeto da discussão era a nacionalidade da mulher. Um dizia que mulher brasileira é melhor que qualquer uma outra. Uma feminista já queria saber saber se o cara estava falando de sexo e tratando a mulher como “pedaço de carne” ou um acessório para a xoxota. E assim foi rolando a conversa. Um disse da mulher negra, que parece ter um grau a mais lá dentro, então era melhor. Outro falou das loucuras suecas. Um disse da falta de ginga da greenga. E lógico passou pela bunda brasileira.
De uma forma ou outra todos temos pelo menos duas mulheres na vida. A mulher que é a sua própria mãe e a outra mulher é a mãe que só existe em campos de futebol, marteladas no dedo, em brigas e coisas similares. E para Freud, a mãe, existente ou não, é responsável pelas loucuras dos filhos. Quem diria a mãe dele.
Enfim a discussão aqui não é da mãe, mas sim, das filhas. Aquela discussão para saber qual é a melhor mulher, é uma puta idiotice. Conheço um monte de mulher, de um monte de lugar, e todas, todas, são ótimas. É lógico que esse assunto passa por várias áreas, mas os mais evidentes obviamente é a beleza do corpo e o gingado sexy. Concordo que brasileira tem um negócio diferente, que nem sei bem explicar, mas que a sueca, a italiana, a espanhola, tem também, e também não sei explicar.
Tenho amigos que acham as mulheres do outdoor as coisas mais espetaculares do mundo. Assim como as capas de revistas e das páginas do meio das revistas masculinas, e até, as de filmes pornô. E não se importam com a nacionalidade. Mas na verdade mesmo, a melhor mulher é aquela que esta com você. Que te faz bem, te leva para um lugar melhor daquele que esta. Aquela que faz a diferença para sua vida. Aquela que te escora quando você parece cair ou aquela que te empurra quando você empaca. Mulher boa mesmo são essas que durante a vida toda, sua e dela, esta ali, para o que der e vier. Mulher que te complementa e te aumenta.
E ai meu amigo, pouco importa o tamanho da bunda ou de onde ela vem.

Música: American Woman - Jimi Hendrix
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 18 December 2007

Tuesday, December 11, 2007

Meios E Fins

Aguçado pelas notícias que recebi do Brasil, em uma ação pirata ou de coleguismo cibernético assisti o Tropa de Elite. É de prender a atenção. Excursões às favelas. Troca de tiros. Torturas. E muito pó. Acabaria aqui em uma só cheirada.
Mostra a polícia corrupta, o chefe do tráfico e o consumidor playboy. Até ai nada de novo. E o filme não tem nada de novo, porque policia corrupta, tráfico e consumidor de pó é tema batido. Assim como troca de tiro e corpo esticado. Muito menos mocinho e bandido.
Mas o filme vai além do pó entupindo as narinas. No Brasil 2000, carente de heróis, em total desgoverno, repleto de corrupção em todos os níveis e totalmente a mercê da malandragem o filme trouxe de volta o anti-herói. Tivemos o Macunaíma, talvez o mais famoso. O Golias. O Didi. E agora o Nascimento. Talvez o nome propositadamente colocado como mensagem para o nascimento de um herói. Enfim é o super-homem sem capa, que vai trazer ao caos a salvação.
Além de não exonerar a culpa da sociedade a margem da favela, os mocinhos classe média-alta consumidores de coca e maconha, o filme mostra a juventude desinformada, alienada a realidade que a cerca. Mesma juventude ONG-Verde, que quer tudo para todos, quer lutar pelos mais fracos, se intitula intelectual mas é inconsciente e cega. Coloca a culpa na terceira pessoa e pensa que suas ações não refletem para a sociedade. Como é de costume no Brasil, a culpa sempre é do vizinho, assim como a mulher dele é mais gostosa.
No contexto que o Brasil esta, onde a corrupção assola todos os níveis e setores, e incluem eu e você. Onde a polícia é bandido e bandido é bandido mas tem mais poder que a polícia. Onde a sociedade esta mesmo é mais preocupada com o próprio rabo, e reflete isso na falta de vontade política, não só da corja do Planalto mas como da sociedade como um todo. Onde é preciso limpar a lama que corre nas favelas e nos condomínios.
Em meio desse contexto o herói faz do fim a justificativa do meio. Será essa a solução?


Música: Dirty Harry - Gorillaz - Demon Days
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada Dez 12 2007

Wednesday, September 26, 2007

Quem é o Marginal?


Outro dia li uma nota, em um desses portais web sobre um conjunto de Rap. Não sou nem um pouco familiarizado com esse tipo de música, ou há quem diga, movimento. Conheço alguns que daqui, e muito, muito pouco daqueles do Brasil. Resolvi então, escutar algumas coisas.
O que ouvi, foram histórias do povo favelado, miserável, bandidos, cheiradores de pó, do preto desdentado, gírias e mais gírias, enfim histórias do submundo suburbano. Tudo com o ritmo tum-tá, do Rap e um português mal falado.
Reclamam do que querem e não têm. A cada verso, o ódio impregnado. Ódio que talvez, seja legitimo mas soa muitas vezes como gratuito. Se contradizem ao pedirem paz e justiça, palavras vãs nesse mundo, e cantando a glória de tombar um “gambé”. Reconhecem o poder do traficante, mas cantam os benefícios da maconha e que pouco ligam para serem fora da lei, mas querem justiça. E assim, faixa após faixa, vão se repetindo. Tudo com o tum-tá.
Dizem que cantam a sociedade marginalizada pela própria sociedade.
Brasil de valores inversos, é difícil saber o que é o que por lá. Político que rouba, esculacha e sai de cara limpa. Polícia corrupta. Traficante que mantêm o centro comunitário. O gueto, são os condomínios verticais ou horizontais. O garoto com escola, intelecto, família estruturada e alguma oportunidade é uma exceção.
E nesse Brasil tomado pela inversão, quem é o marginal?

Notas: gambé é como são conhecidos os PM’s na periferia. Tombar um gambé é matar um policial.
Música: Capítulo 4 Versículo 3 - Raciaonais MC’s
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 26 Setembro 2007

Friday, September 07, 2007

Só Homem Bebe Leite

Fiquei intrigado com a evolução humana e fui ler Darwin. Não me resolveu muito. Darwin com sua teoria da evolução. Do bichinho ao homenzinho. Muito bem explicado, ainda mais agora com a coisa do DNA e tudo mais. Nem tentei as miraculosas especulações religiosas.
Ainda continuo a me perguntar sobre evoluir. Parece ser uma coisa muito abstrata, talvez, surreal. Dalí, Picasso, Gothe tenham sido mais precisos em retratar o ser humano.
Freud, Jung e tantos outros do campo da psicanálise tentam também entender esse bicho do mato, que cria cidades e civilizações, para poder depois, destruí-las. O homem ainda faz o que o macaco dizia*1. Para Freud é culpa da foda mal feita no dia anterior. Para Jung, já é coisa que vem incorporada nos arquétipos. Para outros é simplesmente loucura.
Mas assim mesmo eu, na minha mísera condição de ser humano, fico pensando sobre a evolução tecnológica e nas maravilhas que inventamos. Penso também na revolução causada pela pílula, e dar a bimbada de consciência tranqüila. Inventaram a capa de pingulim que a Igreja não gosta, afinal comer bala com papel não é a melhor das coisas, mas ajuda a evitar bichinhos. São tantas as evoluções que fica difícil de contar. Mas e o homenzinho como fica nessa?
O homem é um ser estranho. Do reino animal, é o único que faz fuck-fuck por prazer e o único que bebe leite depois que cresce. Também é o único que sente prazer em matar e mata para levar vantagem. Assim inventou um monte de coisa pra poder detonar o outro, só por uma questão de vaidade, egoísmo ou puro prazer. E vem assim já faz tempo, e o que faz é aprimorar. Do osso ao míssil teleguiado.
Mas parece até que estou falando só das grandes guerras, Constantinopla, Cruzadas, I, II, Vietnam, Corea, Golfo, Irã/Iraque, Iraque...
Não só estou falando dessas ai, das criações Nazitas, Facistas ou Bushistas ou Xiitas, porque essas são mais que evidentes, mas falo também das pequenas coisas do nosso cotidiano. Da mesquinhez Do egoísmo. Da pobreza de espírito e do espírito de porco. Da inveja. Das pequenas coisas que nem notamos... Ou não queremos notar. Dos sentimentos que negamos. Da raiva destruidora. Enfim, ser humano. Este que talvez para evoluir, seja preciso rever as pequeninas coisas do cotidiano.
E se não agüenta, bebe leite.*2

Notas*: 1 - parte da letra Capitalismo Selvagem, Titãs. / 2 - Frase anônima de bar.
Música: One - U2
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 7 September 2007

Monday, August 27, 2007

Normal Anormalidade

Já viajei por aí muitas vezes. Fui pra lá, pra cá e pro lado de lá. Em toda excursão sempre vi coisas interessantes. Muito interessantes. Foi assim quando fui para os EUA pela primeira vez, com meus 16 anos. Manhattan parecia agressiva e cinza. E olhe só, não era nem perto paranóica como é hoje, com atentados e suspeitos. Vi um mundo diferente do que eu vivia, e sinceramente eu pouco entendia. E hoje voltei de um espetacular espetáculo da Broadway.
Foi assim também com meu pai na Europa. Coisas eram mais diferentes ainda, afinal, alem de estar com o meu pai, que era um sujeito para lá de não convencional, eu estava com 19 anos no auge da minha rebeldia contida e inicio de universidade. E adivinhe, vi o mundo com outros olhos. Visitei países com cultura totalmente diferente a nossa conhecida brasileira. Aconteceu de novo, quando fui com a minha irmã de mochila pela Europa mais uma vez. Lá no Piccadilly Circus, em Pisa ou Champs-Élysées sempre um novo mundo. Em Tokyo, tive a sensação de ser surdo, mudo e analfabeto quando lá cheguei, afinal, não lia, não falava, não entendia absolutamente nada. 36 horas de viagem foram suficiente para colocar um neurônio longe do outro e acabar com a minha sinapse. Não preciso dizer que era tudo diferente. Estive até na casa dos hermanos ali do lado e via a Casa Rosada e até hoje não entendo porque é que eles se sentem europeus.
Mas também foi diferente em Manaus, onde as àguas do Negro e do Amazonas não se misturam. Ou em Belém, onde a calçada tem 40 cm de altura e a manga pode cair a qualquer momento na sua cabeça. E logicamente, a fantástica viagem de Jeep ao interior de Minas, no meio do Brasilzão. Cuspia um tijolo no final do dia, de tanto pó, mas saboreava a comida mineira do jantar.
E em todas minhas andanças vi diferente coisas e mundo. Coisa boas e ruins. As boas são guardadas na memória e nas fotografias. As ruins só servem para comparar. E eu não gosto muito de comparações. Mas é impossível não faze-la.
Hoje vivo no Canadá. Um país misturado entre a cultura americana, soberana em quase todo mundo ocidental e a européia. A Rainha ainda manda. E tem gente com o sotaque britânico. E aqui, logicamente vejo coisas bem diferentes. Calor é qualquer coisa acima de 24 graus e frio só abaixo de 10. Muro não vejo. Aqui eles estão a sociedade é intolerante a violência crescente. Estão preocupados. Um assassinato é muito, um drogado é muito, meia morte é demais. No Japão, o ministro da defesa, renunciou ou renunciaram com ele, porque falou abodrinha sobre a história da II Guerra e das Bombas “H”.
Ai fico vendo o Brasil. Um pandemônio. Li outro dia, que policiais estão fazendo milícias nos morros cariocas, expulsando os traficantes e tomando os lugares deles, e estão faturando horrores. Vejo sempre a manchete de um ou mais corpos. Ouço, inclusive por aqui, frases como “se pudesse roubaria um pouco também” desferida por algum compatriota esperto. Ministro que rouba. Senado que faz falcatruas. Avião que cai, e o único que cai com ele, é o dono do bordel. Mas o bordel de Geane, em Brasília continua funcionando a todo vapor, com a rapaziada fazendo trenzinho e troca-troca, enquanto o resto vai se fudendo, relaxando e gozando. É engraçado porque eu daqui, vejo e escuto, mas o Presidente não, e nada faz, mas continua ali, intacto.
Parece que no Brasil, o que é para o resto do mundo anormal, no Brasil é normal.
Aqui quando alguém diz que a cidade esta violenta, mesmo com o índice baixo, se tiver um Brasileiro na roda, ele vai rir dizer que não é, afinal, no Brasil, só o transito mata 75 mil. Assaltos, seqüestros, homicídios, corrupção é parte do cotidiano nacional. É como se um corpo morto estivesse estirado na avenida mais importante da cidade, e todo mundo só pula, afinal é só mais um.
O que aprendi andando pelo mundo, vendo diferentes sociedades, umas mais avançadas (sei lá o que é que quer dizer isso, se é em termos de tecnologia ou avanço do ser humano), outras menos, é reconhecer as diferenças entre elas. Tanto o norte europeu ou o sertão mineiro, são maravilhosamente diferentes. E jogar papel no chão não é normal, nem pular o morto, mas ai, depende de onde você estiver.


Música: Home - Michael Buble - It’s time
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 27 August 2007

Wednesday, August 08, 2007

Grau

Vivo em minha realidade híbrida. Mescla entre uma nova cultura e costumes com aqueles que trouxe comigo. Agora leio dois jornais brasileiros e dois canadenses e de vez em quando, um americano.
Aqui é diferente. Aqui é verão, lá é inverno. Vejo as fotos de Sampa, todos com seus capotes de inverno, cachecol, luvas, e a temperatura é de 13. Aqui no verão, as sainhas aparecem e as celulites também, mas elas parecem não ligar. A gordinha peituda, mas sem bunda e com rosto de princesa, faz sucesso nas paradas de verão. Tem gente vermelho-camarão do último final de semana no lago. Mas mais engraçado mesmo, é que é verão e tem dia que faz 13 graus, e todo mundo de camiseta, afinal, é verão. E convenhamos, 13 nem é tão frio assim...
Como disse, é diferente. Não arrisco contar piada, nem mesmo traduzir ou adequar, não terá a mínima graça. E eles riem de coisas que não tem a mínima graça. Não ouso usar de sarcasmo ou ironia, seria um mal entendido para declarar guerra.
Em meu mundo híbrido, tem coisas de cá e lá que são muito semelhantes. Como disse leio jornais, e parece que as preocupações e cobranças são as mesmas. A insatisfação também.
Aqui reclamam da segurança, vejam só. Têm alguns crimes aqui, mas esses alguns já são muitos. A sociedade não tolera e quer resultados da política de segurança pública e da polícia. Polícia que esta com alta pressão, já que em toda sua história, semana passada, morreu o primeiro homem em serviço.
Cobram também um melhor sistema de saúde. Aqui tudo é do governo. Tem suas falhas e a sociedade esta descontente. Aqui é um pouco diferente dos EUA, já que lá, o plano de saúde controla a saúde pública.
Reclamam também dos políticos. Dizem que não fazem nada. E só aumentam os impostos. Aliás, imposto é um dos maiores causadores de insatisfação. Todo mundo reclama que é alto, mas todo mundo vê o retorno. Pode se ver nas melhorias das ruas, nos serviços, nas escolas. Mas sempre tem o que melhorar, não tenha dúvida disso.
E eu disse que eram semelhantes. Não iguais. Assim como no verão e no inverno, a diferença é no grau em que acontece, cá e lá. No Brasil o inverno é mais quente.

Música: Closing Time - Feeling Strangely Fine - Semisonic
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 8 August 07

Tuesday, July 03, 2007

O Gol

Estádio cheio. Não há espaço para mais nenhum só torcedor. Estão apertados na galera. Nas numeradas, nem pipoqueiro e nem sorveteiro conseguem passar. Nas cativas, os de sempre. Bandeiras agitadas dão cor ao espetáculo.
Nervosismo. Rádios de pilhas narram o que não se pode ver ali na sua frente. É tenso.
E futebol sempre será assim. A ansiedade pelo resultado final. A certeza da vitória, por mais incerta que seja. E o pavor da derrota.
A paixão pela cor da camisa nunca chegará a ser amor. É muito intenso. Futebol é paixão. Sangue. Suor. E lágrimas.
Lágrimas pelo gol perdido ou pelo gol marcado. Não há como escapar.
E todos esperam pelo gol. O clímax. O orgasmo. O ápice.
Jogo zero a zero, compare-se com uma sessão masturbatória sem fim. É chato, sacal e solitário. E no final, pare ter sido aquilo que ainda não foi. Há vazio.
Com o gol é tudo diferente.
O abraço alucinado no sujeito do lado que você nunca viu mais gordo! Ou então a suruba homossexual na comemoração do gol, na almôndega humana festiva dos jogadores. Ou então nos beijos distribuídos a torto e a direita. Ou na lágrima solitária do mais machão dos torcedores.
Gol é assim. É o alivio. É relaxar. É ouvir pelo radiozinho, o grito mais longo de um orgasmo. E pela tevê tem replay.
Gol é a alegria do atacante e o pesadelo do arqueiro. Gol é o silêncio mortal do goleado e a alegria ensurdecedora e louca do goleador. É o que todos querem.
Quem nunca viu aquele maravilhoso gol. A bola tocada com maestria. Com o toque mágico. A levantada da bola. O “lençol”, o “chapéu”. A bola que sobe encobrindo o zagueiro e deixando o arqueiro desprovido de proteção. Pronto pra se fuzilado, com o chute sem pulo.
É antológico.
Antes que a bola toque o solo, o chute certeiro depois do chapéu desmoralizante dado no zagueiro e sacrifica o goleiro, em seu canto solitário.
É uma pintura. Coisa de cinema. Agora com os efeitos da indústria cinematográfica, pode-se ver até com os efeitos “matrix”.
Jorge Ben já cantou, verdadeiro gol de placa.
Esse gol poderia ser o gol do Pelé em ’58, quando ele ainda só tinha 17 anos, e menino, brincava de jogar bola.
Mas não foi.
Foi o gol do atacante mexicano Castillo, contra o Brasil. E foi um verdadeiro gol de placa.

Notas: Brasil perdeu do México na Copa América,1x0. Gol de Castillo
Música: Fio Maravilha, Jorge Ben
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 1 July 2007

Wednesday, June 27, 2007

Vai meu Irmão

É 64. O canhões estão na rua. Tanques circulam como taxis. Homens de capacete e farda tomam os principais locais do país. No Rio, patrulhas caçam. Em São Paulo, já estão nos calabouços. Estudantes correm sem direção. O Congresso e o Senado estão fechados. Entre “twist and shout”, do reis do ye-ye-ye, ouve-se tiros de fuzil. Esta instaurado o período ditatorial mais longo da história nacional.
Durante esse vinte e poucos anos, muita coisa aconteceu. Uma das grandes coisas, foi perder a chance de transformar o que era a esperança e o sonho, ou então a “bola da vez” chamada Brasil, para ser a “bola do jogo”. Sair do jargão “país do futuro” e fazê-lo presente. Os militares jogaram a melhor chance que tivemos. Nesse período de perseguições, torturas e mortes, tiveram também fugas. Quem pode correu, quem não pode... Formaram-se os grupos dos exilados políticos espalhados pelo mundo. Por todo canto encontrava-se um brasileiro, por ai, despatriado. Expulsos de seu país para poder viver.
Mas passaram-se já vinte anos da abertura política. 40 do início da Ditadura. O país vive ainda em um caos. No Rio, estão quase implorando para os tanques voltarem às ruas. Em São Paulo, há muitos em calabouços, não mais do DoiCod, mas do PCC. O Congresso e o Senado estão abertos mas vivem vazios, e mesmo quando cheios, não servem para nada, só aumentam as crises e escândalos. Os estudantes já não correm e nem tem porquê, já que não tem inimigo declarado e comum, e muitos inimigos são amigos do ponto. Estudantes não sabem para onde ir, já que caminho e perspectiva não se tem. Não temos mais os Garotos de Liverpool. Tivemos as bundas de Carla Perez, e algo pior virá. Faz vinte anos que a mais porca democracia esta instaurada, talvez menos mal.
Mas tem também os exilados. Exilados como eu, por opção. É um fenômeno latino-americano-brasileiro. Quem pode, sai. E não pensem vocês que são pessoas com a corda no pescoço não. Vejam que entram nessa lista até os boleiros milionários, como Ronaldo e Ronaldinho. Tem um êxodo agora para a NBA. Os astros se mandam antes. Tem também aquele grupo da média e alta gerência que pedem transferencia. E tem os como eu.
4 milhões partem todo ano para a romaria de viver sobe outra bandeira1. O caminho inverso dos colonizadores de 500 anos atrás, ou dos italianos, alemães, japoneses, turcos, árabes que foram ao Brasil em busca de alguma coisa muito parecida com esses 4 milhões.
Cada um tem o seu motivo, a sua justificativa, a sua história. Mas o objetivo é sempre muito parecido: tentar o que parece ser impossível na terra natal. É claro que isso mostra que existe alguma coisa não muito certa, mesmo porque, esse número são de pessoas que saíram oficialmente. E nem entramos no mérito dos que querem, mas não podem ou não vão.
Outro dia disse a um famoso jornalista: “... Talvez seja melhor morrer como herói, aquele que morre pelo que acredita, do que viver sem esperança alguma... Faço parte desse contingente, que saiu do país, talvez expulso ou em exílio espontâneo, na busca de um sonho. E eu prefiro morrer tentando, ao viver conformado”
E ele me respondeu: “... Lamento ter que te dizer, que acho que fez a coisa certa...”

Notas”1 - Folha de São Paulo, Editoriais, Clóvis Rossi, 26 Junho 2007
Música: Samba de Orly - Chico Buarque
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 27 jun 2007

Friday, June 08, 2007

Eu não gosto de Cachaça

Certa vez, há muito tempo atrás, no auge da minha adolescência nem tão rebelde assim, fui acampar. Eu e meus comparsas tínhamos esse hábito de nos metermos em lugares longínquos e ermos. Longínquos e ermos para nós, afinal tudo era feito no melhor estilo, pé-ônibus. Quanto mais longe, ermo, sem estrutura, melhor.
Numa dessas excursões da rapaziada classe A da cidade, nos deparamos em um camping. Resolvemos ficar. Fizemos amigos naquele verão, e amigas, que passaram a ser mais importante que os amigos novos, uma vez que a testosterona estava no pico. Enfim, tempos de diversão em meio a natureza. Tínhamos também as fogueiras e rodas de violão, cantando as músicas do Legião e Paralamas, os novos rebeldes desse tempo. Em uma dessas rodas, apareceu um garrafa de cachaça. Não era da boa certamente, mas era cachaça. Foi o pior fogo que tomei na minha vida. Vi o mundo de uma perspectiva imiaginável aos olhos sóbrios de hoje. Chamei Jesus de Genésio. O dia seguinte, foi pior que a noite anterior. A ressaca secara minha boca e minha cabeça parecia um festival de marteladas. Inesquecível, tanto que conto há agora, depois de uns quase 20 anos. Desde então, não gosto de cachaça.
Mas parece que esse meu anti-gosto não é compartilhado com o Lula. Talvez agora ele só tenha mudado o rótulo da garrafa. Lula vem enfatizando o desenvolvimento do bio-combustíveis, o que, de um ponto de vista é louvável. Afinal incentiva a pesquisa e desenvolvimento, coisa meio lenta no país. A política do bio-combustíveis de Lula é reconhecida em todo o mundo.
Lobistas do óleo divulgaram recentemente uma pesquisa da ONU, mostrando que o bio-combustível já afeta o mercado antes mesmo de se tornar uma realidade, menos virtual. Nesse relatório, afirma-se a alta nos preços dos alimentos.
É de extrema importância o desenvolvimento de novas tecnologias para os combustíveis uma vez que o petróleo esta com seus dias contados. Precisa-se desenvolver combustíveis que não só impulsione os veículos e a indústria, mas que também não piore o aquecimento global, e ainda por cima gere empregos.
Esse é meu medo com o álcool de Lula. Não só o que ele bebe, mas o projeto Pró-álcool. Todo mundo vê a curto prazo, uma coisa boa. E eu vejo a longo, uma coisa ruim. Álcool precisa de cana. Yes! Nós temos cana. Para o plantio da cana-de açúcar, é preciso terra, muita terra e de novo, Yes! Nós temos terra. Além de que a tecnologia do etanol como combustível é nossa. Então porque não?
Porque o grande problema do Brasil é e sempre foi, e parece que sempre será, a péssima distribuição da renda. Foi assim nos tempos da Coroa. Do café. Do primeiro ciclo da cana-de-açúcar. Da borracha. Dos grandes latifúndios. E hoje dos poucos aglomerados de ricos.
O Pró-álcool traz de volta o risco do latifúndio. Terras e mais terras cheias de cana, produzindo milhões de litros de álcool outros milhões de litros de vinhoto, alguns empregos para bóias-frias, e pouquíssima distribuição de renda.
O comunista Lula, a favor da reforma agraria, da distribuição de terra, padrinho do MST, a favor de tomar a fazenda do FHC, sumiu! Esqueceu-se das teorias comunistas, que talvez tenha aprendido, ou só tenha ouvido falar no disse-que-me-disse. Parece não ver que o Brasil esta parado no tempo. Ficou na lembrança para a lembrança o slogan, “país do futuro”, para voltar a ser o grande latifúndio do mundo. Tudo porque falta dar fermento a classe média que hoje é inexistente, faze-la crescer e educa-la. É a única chance do Brasil começar a se movimentar.
Essa história do etanol me deixa preocupado. O relatório da ONU parece fazer sentido uma vez que, não comemos cana, a não ser rapadura e açúcar, mas bebemos, como cachaça ou garapa com pastel na feira.
Eu não bebo e não gosto de cachaça. Mas o Lula continua tomando a dele.

Música: Sera - Legião Urbana - para meus amigos que cantávamos juntos envolta das fogueiras.
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 8 June 2007

Saturday, June 02, 2007

Diferenca das Bananas

Moro fora. Sai do Brasil em meu exílio espontâneo. Resolvi deixar as terras brasileiras como Cabral e ir ao desconhecido. Diferentemente de Cabral, que chegou coberto de roupa em um calor invernal, eu cheguei de calças curtas e chinelos de dedo em uma tempestade de neve.
Não é a minha primeira vez fora do Brasil. Dele, já sai muitas vezes, mas nenhuma teve o mesmo objetivo desta vez. Aqui, não é o mundo perfeito. Aliás é muito imperfeito como qualquer lugar. Mas o que é que difere tanto do Brasil que deixei lá atrás?
Não falo dos amigos e família que ficaram, porque esses são realmente insubstituíveis, seres singulares em suas qualidades e defeitos. Não falo também da rica cultura culinária que temos, e eu particularmente, gosto muito. Não há comparação com as nossas bananas e as bananas daqui; yes! Nós temos bananas! Não ouso tocar no assunto das mulheres, as mais belas delícias do planeta estão lá. Ainda mais se tiver na praia. Aquele biquininho, aquela marquinha de sol a praia em si, é o que há!
São coisas que nem o mais louco ou bobo contesta. E não dá nem pra sola do sapato comprar isso com o resto to mundo.
Posso falar de outras coisas do Brasil. Como o famoso “swing” brasileiro, e pelo amor de Deus, não confundam esse “swing” que estou falando com aquele outro “swing”1. Do jeitinho de fazer as coisas e para dar jeito nas coisas. Posso falar também de muitas outras coisas que são particularmente peculiares ao país. Posso descascar o abacaxi Brasil e dizer tudo o que todo mundo já sabe. Cairiam as cascas de corrupção, de malandragem, falta de educação e certamente de falta de vergonha na cara. Cairiam também cascas podres dos três poderes. Entupiriam o esgoto com de dejetos parlamentares. E assim eu iria, me repetindo em cada letra.
Então não o farei.
Contarei, à vocês, coisas que talvez já sabiam ou que talvez não.
Aqui, as taxas que pago são altíssimas. Está lá estampada no recibo, e as vezes, a maioria delas doí ao ver. Pago também, já descontado na fonte, um outro tanto. E doí mais ainda. Mas quando doí, ligo 911. E acreditem os caras chegam em 5 minutos. Ou vou ao hospital e lá sou atendido. Espero, é verdade, mas sou dignamente atendido.
Tem sempre um cara de uniforme azul por perto. Ele é chato, não deixa beber e dirigir, dá multas e faz a lei funcionar. Mas ele não faz muito não, não tem crime.
Toda criança vai a escola. Não sei se são as melhores do mundo, mas certamente eles aprendem alguma coisa. Mas todos vão. E papai e mamãe que é preocupado com a educação dos filhos não precisa pagar a mais para tê-la.
Pequenas coisas do cotidiano também são diferentes. Coisas que parecem estúpidas, insignificantes, ridículas mas fazem a diferença na sociedade como um todo. Os carros param para os pedestres. Os pedestres, na maioria das vezes esperam o sinal abrir para atravessar na faixa. Não ultrapassam na faixa dupla. Não jogam papel no chão, tem lixo, e separado para a reciclagem. Esperam a vez na fila. Param no sinal vermelho, mesmo a noite, quando não tem ninguém, afinal não tem malandro pra assustar.
Parece pouco né? Aqui cada um faz a sua parte e não reclama da parte do outro. Tudo parece funcionar bem. Essa é a grande diferença. Cada um faz a sua parte . Para que funcione é preciso que cada um faça a sua e não empurre a responsabilidade para o outro. E no Brasil sempre a responsabilidade é do outro e nunca nossa.

Notas* : 1 Swing também é conhecido como troca de casais no submundo do sexo.
Música: Get It Together - Seal
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 2 June 2007

Monday, April 30, 2007

A Média Inexistente

Nunca fui lá muito bom com números. Matemática era um encalço nos tempos de colégio. Essa tal de matemática sempre me deu dor de cabeça. E piorava a cada dia. Fazia minha vida no colégio um inferno. Mesmo que em algumas vezes, eu tenha tido criativas soluções para aquelas equações estrambólicas. Logaritmos, números primos, terceiro grau, frações e inteiros. Sinceramente, não faziam muito sentido. As duras penas aprendi.
Apesar de detestar essa tal de matemática, aprendi e tem sido útil. Como já disse anteriormente, muitas vezes para mim, dois mais dois não são quarto mas dá um bom sessenta e nove. Na matemática aprendi sobre a média. Ponderada. Absoluta. A média. A média soma-se tudo e divide por dois, tem a média absoluta. Ou soma-se tudo e divide-se pelo número de itens, tem a média ponderada. Foi nesse tempo de colégio que eu aprendi também o que era a classe média, nas aulas de geografia. Era o que ficava entre a Classe A e a Classe C. E engraçado, não tinha nada da matemática que eu estava aprendendo.
Mas venho dizendo, faz um tempo já, que a classe média do Brasil esta sumindo, e um estudo da Unicamp prova o que estou falando, mas quero saber quais os parâmetros para a criação desse tal índice, sendo que eu não concordo. O Brasil é um país de duas classes apenas. Os ricos e os podres. Você esta em uma dessas duas, mas podre você não é. Certamente sua resposta a minha afirmação será me dizer: eu não sou rico.
É ai que começam as classificações para os sub-tipos de classificação econômica. AA+, AA, AA-, A+, A, A-, BB+, BB, BB-, B+,... C, C-, CC-, D-, DD-..., e note, à partir da C não tem sinal de +. Começa C e decresce. Mas isso tudo é balela. Podemos ter A, B e C, e só. As derivações são conseqüência do fracionamento do mercado, criado pelos gurus do marketing, para poder trabalhar melhor o comportamento do consumidor. E todo mundo engoliu. Mas o que vemos na realidade não é assim. É A, B e C.
“A” são os ricos, todos os ricos, “C” são os podres, todos os podres. E “B” seria a soma de A e C dividido por dois. Mas não é bem assim que acontece. B não é a media ponderada ou absoluta entre a riqueza e a pobreza.
Acontece que a chamada classe média sumiu! Simplesmente não existe mais. Se você paga escola para filhos, ou estudou em escolas particulares, vai ao shopping fazer compras, vai ao cinema, churrasco com amigos, um jantarzinho a luz de velas com a patroa, viagem à praia nos feriados e talvez para fora do país, você é rico. Se não, é podre. Mas você me diz que é classe média pelo seu faturamento mensal, mas no final do mês, acaba no zero ou devendo. Você não é classe média, é pobre, mas pensa que é classe média, afinal quer viver como rico, mas paga as contas como pobre. E lógico, tem os muito mais pobres que ricos.
O resultado disso é a tensão social que vive o Brasil. O atrito gerado pelo BMW que passa na porta da favela ou do morro, que os miseráveis assistem aos desfiles de luxo da Zona Sul. A malandragem que desfila pelos Jardins, em suas motocas envenenadas, em busca de uma vítima em traje de gala. O proveito da bandidagem no desespero paterno diante de seus 5 filhos e da esperteza juvenil. O terror tocado pelos grupos criminosos, recheados de seres desprovidos de perspectiva. Do carro blindado no semáforo assistindo ao show de malabares, das ramelentas pulgas das sociedade marginal ou ver da janela do seu luxuoso apartamento, o maravilhoso-miserável cômodo 3x3, para cinco, feito de placas, madeira e um pedaço do outdoor estampado a cara do último deputado da cidade.
A tensão social ainda consegue ser sustentada pela sociedade como um todo, podres e ricos, mas a guerra não declarada já é oficial. E a solução dessa equação crônica, parece não existir. Mas a solução é simples: vontade política, não só dos péssimos governantes e políticos, mas de toda sociedade, na qual eu e você estamos inclusos.

Música: Rio 40 Graus - Fernanda Abreu & Chico Science
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada 30 April 2007

Sunday, April 22, 2007

Brasília e o Fiat 147

Tem uma fotografia lá na casa de minha mãe, guardada no álbum, a mais de sete chaves. Pouquíssimas pessoas já viram essa pequena foto. Foto do tempo da máquina fotográfica manual e processo químico de revelação. É lá dos anos 70. A foto é de um formato não muito usual nos tempos de hoje, como 13X15 cm. Coisas de setenta. É uma foto minha. Sou eu lá no pequeno pedaço de papel, colorido por reações químicas. Sorrindo, com meu cabelão ondulado, e acreditem eu usava cabelo comprido e era ondulado, estava eu lá dirigindo a Brasília Amarela de minha mãe. Na verdade eu estava mesmo é brincado de dirigir, tinha, se muito, uns 3 anos de idade. Mas também tenho outras lembranças dos carros de minha infância. Um deles, foi um Fiat 147, vermelho, que meu pai comprou e até hoje eu não sei o porquê. Esse carro foi responsável por engolir meu carrinho de ferro. Nunca mais revi o carrinho. Foi com esse carro, que não passava dos 80km/h, o que para a época era bem razoável, minha mãe e meu pai, inventaram de ir ao interior de Minas, Furnas. Com o espírito aventureiro fomos nós para lá. Levou um tempo mas chegamos, e melhor voltamos.
Meu pai resolveu vender depois dessa viagem. E hoje em dia nem a Brasília e nem o 147 são fabricados.
Brasília, foi o nome dado ao carro, para celebrar Brasília. A Capital do país no meio do nada. Brasília faz hoje 47 anos. Não se sei para orgulho ou desespero. A cidade construída com os projetos de Oscar e Lúcio. Encheu o sertão de Candangos e Porcos. Os Candangos povoam as cidades satélites e os Porcos deveriam ficar mais por lá, mas só vão as terças, quartas e quintas, até o meio-dia.
O que deveria ser o um exemplo para o país e para o mundo, de que devemos arriscar, enfrentar as dificuldades e construir algo bom, esta mais para um exemplo à não ser seguido. Brasília, talvez nunca tenha tido a vocação de motivar pessoas a fazer algo construtivo. Talvez, seja mesmo a filha de proveta de JK, cercada de conchavos e troca mesquinhas, encalacrada em seu DNA. Talvez seja o marco de concreto da corrupção secular brasileira.
Agora com o governo Lula, a máquina parece ser mais corrupta. Talvez seja mesmo. Mas não elimina a podridão desde os tempos da terraplanagem, quando lá nem existia. Lula só piorou. Em seu sonho da conquista do Planalto e a tomada do Brasil, ele só não contava com o seu egocentrismo, mas talvez já imaginava nos benéficos próprios.
Brasília era para ser a cabeça no coração do Brasil. Era para ter o respaldo de estar centrado, no meio do Planalto Central. Geograficamente equidistante. Longe dos grandes centros e longe das pressões sociais. Livre para poder governar em favor da sociedade. O centro político no centro do Brasil. É nobre o propósito.
Mas política se faz com políticos. E os políticos brasileiros não governam para o Brasil. Fazem em prol de alguns grupos seletos. E são eles que dirigem Brasília.
E eles pilotam Brasília com a mesma seriedade e precisão quando eu dirigia brincando a Brasília de minha mãe parada na rua. E conduzem o Brasil a velocidade máxima de crescimento, como o espetacular Fiat 147 vermelho de papai. Mas eles ainda têm uma grande diferença com os dois carros: eles não foram descontinuados da linha de produção e substituídos por modelos melhores.

Música: Pelados em Santos - Mamonas Assassinas - Mamonas Assassinas - 1995
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada April 22 2007

Friday, April 06, 2007

O Rabino, a Gravata e o Nó Cego

Neva. É primavera. Dizem que é normal. Para mim parece anormal, sendo que é primavera. Deveriam ser flores e não flocos. Mas é primavera e as flores logo virão. Tudo ficará verde e florido, chegará o calor e tudo parecerá normal.
Anormal mesmo é o que eu ando vendo nos jornais brasileiros. Abismado com as coisas da América do Sul e com as direções que o governo Luluista vem tomando.
Começou com o parimento de ministérios, para agradar os gregos, os troianos, os astecas, os maias, o PCC, o PMDB, PSD, PFL... Dando mais que puta desesperada, Lula gerou mais e mais ministérios, aumentando o já altíssimo custo da máquina estatal enferrujada. Ai, veio o Bush. Lula nada conseguiu do macaco gago. Depois Lula foi. Achou bacana andar no carrinho de golf e nada conseguiu do macaco gago, que ludibriou o inocente Presidente brazuca.
Pior não foi isso. Lendo notícias, vi que o Planalto esta andando em cascas de ovos para ir discutir com Chavéz sobre os bio-combustíveis. Lógico que isso é pressão gringa, que já sabe que esse recurso negro, já tem os dias contatos.
Chavéz, verborragico, falou pelos cotovelos sobre a fome e os problemas do uso de cana para fazer combustíveis. Segue a filosofia de Castro, como a cartilha da galinha Corococó lá do jardim da infância. O anti-americanismo chaveztiano soa-me idiota em um mundo globalizado. E Lula não sabe se cai para o lado do Chavéz, a quem se refere como aliado ou se cai fora e dá loco o lombo para os Greengos. Chavéz justifica que trará fome ao mundo o programa de uso de combustíveis alternativos, uma vez que as áreas destinadas ao plantio serão tomadas pelo feroz capitalismo.
Lógico que Chavéz não esta olhando para a fome do mundo, porque o problema da fome não é terra, nem recurso, é político. Chavéz como todo bom ditador, assim como Fidel, olha para o próprio umbigo. Esta puxando sardinha pra o seu lado. Venezuela é um grande produtor de petróleo e uma fonte alternativa, minaria não só a sua economia mas o grande poder de barganha com os americanos.
É claro que um programa de incentivo ao plantio da cana-de-açúcar tem que ser muito bem feito com regras e restrições, principalmente em um país-lambança como o Brasil, enraizado no extrativismo colonial. O capitalismo desvairado poderá levar a monocultura aos extremos dela.
Lula parece um nó cego. Vai defender o pró-álcool e nada desatará. Deve ser porque assim dará pra fazer mais cachaça. Vai dizer que colocará mais homens no campo e que gerará mais empregos. Pode ser verdade, contudo um campo maquinado e bem equipado é mais produtivo que com um bando de bóias-frias, e como bom capitalista, prefiro máquinas produtivas à um bando de bóias-frias.
É preciso ter mais cuidado ainda, o falarmos da distribuição da renda, através de mais homens trabalhando no campo. Com o plantio da cana, o risco dos Barões voltarem a cena e grande, e a renda ficaria mais concentrada, uma vez que é preciso terra. Muita terra. Lembre-se que: a tal reforma agrária já faz 20 anos e até agora mesmo velha, ela nem sabe engatinhar. Para piorar, nasceram serem malignos como o Maluco do MST com idéias pra lá de perigosas a humanidade.
Seria melhor o Brasil investir em pesquisas e desenvolver novos recursos. Aliás falta ao Brasil posicionamento estratégico. Como quando perguntamos a um garoto o que ele quer ser quando crescer, e ele diz: bombeiro. Se perguntar ao Brasil, ele, com 500 anos ainda não sabe a resposta. Enfim, Lula e Chavéz são dois nós cegos.
Pior ainda é a crise dos aeroportos, controladores de vôos, porque até para sair do país a coisa ficou difícil. Lula, na maciota, anuncia o fim da crise sem ter uma solução. Só no Brasil para alguém anunciar o fim de uma crise, sem ter uma solução. E como sempre, ele brinca que governa.
Mas o melhor exemplo mesmo é o Rabino Surtado. Já o achava louco e hipócrita, com aquele sotaque arrastado e idéias de devaneios. Mas o surto de luxo do Rabino, o ladrão de gravatas Louis Vuitton e Armani comprovou tudo.
No Brasil roubar é legal. O rabino só se desculpou e nem se quer pagou fiança.
E de fato, o Brasil enlouquece qualquer um.


Música: 1.100.00 - Ana Carolina - Dois Quartos - 2006
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada April 5 2007

Saturday, March 24, 2007

Pescoço Torcido

Li outro dia um texto do Sarney. Sarney para mim, em um certo período da minha vida era somente um bigode na televisão. Falava com o sotaque do norte e começava sempre com brasileiros e brasileiras. Sarney presidente-vice-presidente da transição da ditadura-democracia e da galopante hiper-inflação. Ele tem uma coluna num jornal de grande circulação nacional. Escreve as quintas. Foi numa dessas quintas que li, não me recordo qual. Não tenho o costume de ler a coluna dele ou qualquer outro político. É por pura birra, descontentamento e desilusão. Não gosto muito de dar IBOPE para eles, mas às vezes, me rendo, caio à tentação e cometo o crime. Já fiz isso com FHC, Delfin, Mailson, Bresser...
Sarney não começou seu texto invocando homens e mulheres do Brasil, nem me lembro como ele começou para ser sincero, mas o conteúdo era um tanto interessante, e não falava de marimbondos. Disse lá que o grande vilão do desgraçado e ridículo desenvolvimento nacional, até mesmo comparado-se ao próprio umbigo, é da Constituição de 88. Disse lá, que de pescoços torcidos, os políticos escreveram a constituição olhando para o passado. Citou nomes americanos para demonstrar a solidez da constituição americana feita por 55 pessoas e comparou com a celebre nota de Ulisses Guimarães, que dizia que a nossa foi feita por 10 mil. A gringa tem 200 anos e é solida, já a nossa tem 20 e tá toda remendada. E ainda reforçou a seu ponto com dados e números de fontes fidedignas. E eu concordo com ele. Eles não só olhavam para o passado, olhavam só para o passado deles, dane-se a Nação.
Seo Zé Sarney só esqueceu de incluir-se a corja. Tentou esgueirar-se da culpa. Não cola. Sarney, vice de Neves, esta no cenário político brasileiro há muito. Fez parte do Arena em plena ditadura. Não é atoa, que na eleição indireta de 85 estava lá como vice. Culpou os senadores e deputados constituintes pelo corporativismo instalado no país hoje, um dos responsáveis por esse crescimento gabirú, mas não chamou para si a responsabilidade como Presidente. Coisa que esta em voga hoje, ou talvez nunca tenha saído de moda na passarela política nacional. Não ter responsabilidade, não assumi-la ou não saber é característica.
Não vou ficar aqui falando mal do Sarney, nem do Neves, que foi morrer antes de sua posse, apesar que cotado como o “salvador”, estava na política há mais tempo que seu vice na época, e era íntimo do Arena, pai do PMDB e irmão da UDN. Muito menos vou falar do Collor e do topete do Itamar. Nem pensar em falar do FHC, SBP•1 ou BHC•1. Nem do Lula. Figueiredo, Médice, JK, GV ou o grande Cabral, não o ministro, mas o Álvares. Estaria fazendo o que eles todos fizeram: olhando pra trás.
Os pescoços torcidos ainda estão impregnados no Palácio do Planalto. Talvez por estarem sempre olhando pra trás e apoiados em verdades ultrapassadas e nem tão verdades assim ou até em grandes engodos, os passos do desenvolvimento andem tão lentos e amedrontados, com muitos tropeços e pouca visão de futuro.

Notq *1: SBP e BHC são inseticidas, e não tem nada haver com política, a não ser se voce usar para eliminar esse tipo de inseto.
Música: Attitude - Guns and Roses - Spaghetti Incident - 1993
Por Fernando Flitz Katayama, Toronto, On Canada March 24 2007