Tuesday, August 30, 2005

Desaprendendo com O Aprendiz

Hoje, saiu em um caderno especial, uma matéria que falava sobre o “game-show” do Roberto Justus, “O Aprendiz”. Reforçou minha opinião sobre esse assunto. Desde o primeiro episódio do primeiro show, venho dizendo que isso é um equívoco.

Temo porque o mundo anda desprovido de senso crítico. Mais essa baboseira da televisão é empurrada goela à baixo das pessoas. Se bem que merecem afinal, assina o cabo, que você pode ter mais de cem canais à escolher.

Mas o que me faz temer é que todo mundo acabe acreditando que é assim que mede se o sujeito é um bom profissional ou não. Se esta apto à enfrentar o mundo dos negócios ou não. Mas não só isso! É a pura depreciação do homem de negócio. Do estrategista.

Estratégia, a palavra mais estuprada do vocabulário corporativo, confundia e erroneamente dita para ações. Você viu lá, no showzinho, o cara dizer assim: “nossa estratégia foi de abordar as pessoas na rua...”, abordar as pessoas na rua é ação, determinada pela estratégia, previamente definida!

Dá nervoso ver isso, principalmente com o atual estado do Estado brasileiro, sem estratégia, sem administração, sem governo e sem ação.

Os próprios participantes, na reportagem do jornal, assumem que aquilo é só um show, e o que manda é o índice de audiência. Não medem a capacidade intelectual, o potencial nele inserido ou o melhor para determinada função.

Outro dia fui a uma dinâmica de grupo. É eu participo desse tipo de coisa. Reles mortal tem que ser submetido a essa invenção, que nem o RH sabe explicar com clareza como isso funciona. Se alguém, que ler esse texto souber, me explique pelo amor de deus! Nem vou entra no mérito da coisa em si, vocês já podem imaginar o que é que eu vou escrever daquela merda.

Mas o que eu ia dizer é que lá havia pessoas de nível sócio-cultural alto, pós-graduadas, até com 2, com 2 idiomas e tudo mais, mas achavam as “dicas” do Justus boas. Dá arrepio de escrever isso.

As dicas eram boas?! Quem da dica é rotulo de leite Moça!

Meu deus! As pessoas lá, sofrendo um processo seletivo, da pior qualidade, semelhante ao que o cara faz na televisão, acham que podem usar as “dicas” que o sujeito fala na TV?

É preciso ter critica e não engolir tudo!

O Justus sabe muito bem mesmo é se vender. Ficar em evidência e comer as gostosas do momento, se bem que ai, parabéns para ele. E mais nada.

Ele não ta nem ai se o cara que vai lá pro grupo dele é bom ou não. Faz parte do contrato. E se o cara for pedante, põe ele para tirar Xerox, no cantinho da sala, afinal quem paga o “salário” não é o Justus, é o patrocinador.

O Brasil precisa entender o momento que esta passando. Precisa inovar seus métodos de recrutamento, tanto no setor privado como público. Precisa investir em talentos. E tentar, a todo custo, segurá-los aqui. As universidades e indústrias americanas e européias estão parecendo o Real Madri, que só tem talento brazuca.

Nada adianta ficar copiando os modelos já existentes, afinal o Brasil é um país peculiar. Aqui a banana nanica é a maior. Precisamos criar os nossos modelos.

Mas talvez o velho Chacrinha esteja realmente certo: “Alô, Terezinha, na televisão nada se cria, tudo se copia”. E todo mundo imita a televisão.

Pena que talento é nato e a reprodução é impossível.

Por Fernando Katayama 30 Agosto 2005

Thursday, August 25, 2005

A Atemóya

Fui à feira no último sábado. Essas feiras de rua, tradicionais em cidades do interior, aqui na minha cidade, ainda existem algumas. Lógico que estão perdendo espaço para os hipermercados e tudo mais, mas ainda resistem bravamente à mudança. Logo pela manhã, bem cedinho, começam a chegar os caminhões Mercedes Azul, 78, abarrotado de coisas. As barracas surgem com o sol. Fui à uma dessas. Tradicional aqui da cidade.


Tem pastel do japonês, o doce de leite de panela, o tomate do seu Zé... O cheiro, a rua, os feirantes, me fazem lembrar da minha infância, quando eu acordava cedinho para ir passear na feira, e ajudar minha mãe, nas compras de casa. Morava à apenas uma rua.


Certa vez, fui comer pastel lá. Era bem cedinho e estava saindo de uma noitada com um amigo e um ex-caso meu. Acabei experimentando uma fruta. Aspecto estranho. Cor verde. Meio feia. Polpa branca e substanciosa. Gosto azedo-doce e delicado. Muito saborosa.


Estou falando da fruta, sem malícias, caros amigos.


Mas eu disse que tinha ido à feira no último sábado, não é?! Pois é... Fui à barraca do simpático feirante, que havia me dado o prazer de conhecer aquela fruta. Voltei lá pra comprar umas duas... Mas infelizmente ele não tinha mais. Como tinha ido lá especialmente para comprar a deliciosa atemóya, voltei para minha casa, um tanto decepcionado, afinal, queria a atemóya, e não banana, abacaxi, laranja... Essas frutas tinham lá.


Voltando da feira, comprei um jornal. Desses de circulação nacional e grande prestígio. Afinal eu não iria comer mais a atemóya e não queria voltar de mão abanando. Chegando em casa, logicamente, passei um café, meu fiel companheiro das leituras dos meus jornais. Entre uma página virada e um gole, li uma notícia sobre a nossa crise política atual.


A reportagem era sobre o benefício que essa crise pode trazer ao país. Sim, benefício. Era sobre a reforma do sistema político nacional, falido e corrupto.


Tenho que concordar com a reportagem. Pode ser que essa crise traga ao país mudanças no sistema. Algumas propostas já estão sendo formuladas. Redução do tempo de campanha. Algumas novas normativas. E uns outros blá blá blás.


Parece que agora a culpa é da campanha e do tal marketing político. Mas não é. O buraco é bem mais embaixo. As falcatruas usam os orçamentos milionários para desvios de verbas e tudo mais. Isso nem é lá uma grande novidade. Afinal como disse nosso Presidente: “caixa dois é pratica”.


Vou falar um pouco de marketing para que vocês vejam como é que funciona o nosso sistema! Nós, estrategistas de marketing, trabalhamos com dados e números que surgem através de pesquisas. Precisamos saber onde é que tem o que, e se queremos ou não isso ou aquilo. Então traçamos planos e ações para chegar nos nossos objetivos. É muito bonito. Usamos tudo que esta disponível, e logicamente, com ética, seriedade e honestidade.


Mercado também é estabelecido por nós e denominamos de: mercado total, potencial, disponível, qualificado, alvo e penetrado. Para facilitar, faça um circulo dentro do outro e vá colocando os nomes, comece do mercado total, o maior e na seqüência, faça sucessivos círculos circunscritos, até que acabem todos os níveis.


Vocês devem estar pensando, com uma certa cara de ué, onde é que eu quero chegar com isso e o que e o que tem haver marketing com a nossa crise e a reforma do sistema eleitoral.


Simples.


Quando é que o IBEGE faz o senso? Alguns anos antes das eleições? Pronto, determinamos com pesquisa, o nosso mercado. E à partir daí é muito fácil segmentar o mercado. Olhe para os círculos que fez. Será que com o senso, nós não sabemos exatamente se você tem 1 ou 2 carros na garagem? Se tem televisão? Número de pessoas? Escolaridade? E tudo mais?


Semelhança ao mercado total? Potencial? Disponível? Qualificado? Alvo e penetrado? Podemos ir mais fundo e saber das suas necessidades! Incrível! Clap clap clap, palmas para nós, pessoas de marketing.


Agora em um sistema eleitoreiro como o nosso isso é extremamente importante para definir as estratégias à serem usadas. Mas isso tudo tem como ser diferente.


Hoje nós somos obrigados a votar. É impressionante em um país democrático, ou que pelo menos se diz, que o direito seja um imposto. É direito seu, e use-o quando quiser, se quiser.


Algumas pessoas dizem que é nosso meio de dizer o que pensamos. Concordo. Mas tem pessoa que não pensa ou que não quer se manifestar, mas em nosso sistema atual, são obrigadas. E não pensem vocês que não há punição a esse ato de rebeldia. Como na ditadura, há punições. E o Brasil é um país democrático, vejam só.


Como somos obrigados a votar, facultativo só para adolescentes, que têm a responsabilidade de escolher o caminho da Nação, mas não podem ser julgados por seus atos como adultos responsáveis. Os jovens representam uma fatia grande da população. Aumentaram o mercado. Como somos obrigados, fica mais fácil fazer a campanha, já que sabemos exatamente quem é que vota.


E o que era direito do cidadão passa a ser obrigação.


E se votar não fosse obrigatório? Ai as coisas, meu amigo, iriam mudar de figura. Votariam somente as pessoas que querem votar e têm convicção dos seus atos. Porque estão decididas. Porque conhecem as propostas, não só para aquela campanha, mas a proposta do partido. Não votariam somente na figura representa de um ou outro candidato, porque só ele, não governa. É preciso ter a base e tudo mais, votariam na conscientemente nas propostas e ideologias do partido.


As campanhas teriam que mudar radicalmente o discurso, porque agora teriam que convencer pessoas que estão interessadas na política, não adiantaria ficar fazendo palanque, chamar Xoraõnzinho & Cornudão para fazer showzinho em praça pública. Não adiantaria contratar os boca de urnas. Não... Teria que ser muito mais convincente.


Eles não conseguiriam determinar exatamente o mercado votante, como fazem hoje.


E você não teria que optar pelo menos ruim. Menos ladrão. Ou com menos dedo, afinal com menos dedo a impressão que dá é que cabe menos na mão. Grande erro.


Como eu que lá na feira, que não quis levar nem o abacaxi, nem a banana, nem a laranja. Eu queria a atemóya e pronto! Não comprei nada e fui embora.


Hoje, tem gente que, mesmo não querendo, comprou Lula e está agora, engolindo o sapo.


Por Fernando Katayama 25 Agosto 2005

Thursday, August 18, 2005

Corno Manso

Estou aqui mais uma vez. A tevê esta ligada. Mas não presto muita atenção. A rádio toca alguma música que ouço pela Internet. Aliás, o que tem de janela aberta aqui, não é brincadeira. Têm página de jornal brasileiro, de jornal estrangeiro, de piadas, de receitas, notícias. Alguns são links que amigos me enviaram.


Recebo também, e-mails. Alguns são sacanagens, outros, sérios, de trabalho e outras conversas, outras apresentações chulas, intituladas “olha que bunitinhuuuuu”, assim mesmo “bunitinhu”, algumas orações, piadas aos montes.


Chegam vídeos, fotos, músicas... Sem contar os milhares de spans e propagandas, porque tem gente que acha que ficar entupindo as caixas postais com informes, funciona para vender meias Vivarina e facas Ginzo. Áureos tempos do 1406!


Mas deixando de lado tudo isso, tem uma coisa que chega, e é sempre sobre o mesmo assunto. Uns bem humorados tirando sarro da coisa. Outros são bravos, chegam até a serem pouco didáticos e polidos. Uns outros horríveis. Mas todos com o tema em comum: a atual crise política do Brasil.


Não dá para não pensar nisso.


Não sou Petista, e nunca fui. Mas também nunca fui da Arena, PMDB, PSDB, PFL, PDT, PC do B ou da P.Q.P, sempre fui à favor da democracia, do debate, das coisas sérias e honestas, logo, não me vi em partido político nenhum. Mas ver o único partido brasileiro que existia, ou ao menos parecia existir, desmontando ou então, mostrando o que sempre foi, é triste.


O PT se vendeu!


Negou tudo o que pregou durante sua existência, sua militância, seu movimento político, outrora honesto e legítimo. Era convicto em suas propostas e convencia.


Não estou dizendo que era certo ou errado. Que eu apoiava ou acreditava. Não! Só estou dizendo que o PT lá nos anos 80, era convicto e essencial à democracia que estava sendo reconstruída, após anos da última ditadura de direita e com a turma da “Diretas Já”.


Mas como tudo muda...


Os “companheiros” também mudaram. Durante anos almejaram estar lá e Lula, que certa vez, já foi Lula-lá, chegou lá. O tão sonhado posto de Presidente da República, o posto mais alto da nossa República para um homem da política.


Certa vez, li um filósofo, se não me engano francês, que disse, mais ou menos assim: esquerda não pode ter o poder, se não se transforma em direita e acaba com a oposição.


Acredito que foi isso que aconteceu e o que era oposição passou a ser situação, e deslumbrados, como criança em festa com brigadeiro e bolo de chocolate com calda, Lula e seus companheiros se venderam.


Agora o país sofre essa corrupção desvairada e louca. O PT tentou de todas as formas conter a explosão de acusações, mas foi em vão. Durante os quase 25 anos de oposição petista, os que estavam no governo, hoje, oposição, aprenderam como fazer a oposição e destruir.


Nada de piquetes em porta de fábricas e greves. Nada disso. Atacar direto o estorvo e destruir. Destruíram o que os incomodava, o PT.


Alguns vão falar ”mas você não acredita que no governo do FHC, ItF, FCM e JS não tiveram corrupção?”. Lembro do ACM, que escancarou o painel, era alguma coisa sobre compra de votos ou quebra de sigilo. O FCM sofreu o impeachment por enriquecimento ilícito, ou seja, usou o governo para juntar grana. Então, sim teve.


Contudo não posso ficar olhando para os outros governos, seja recente ou lá dos tempos da colônia, para justificar o que acontece hoje. Posso até dizer, plagiando nosso Presidente, que roubar, sonegar, falsiar é corriqueiro e está em nossa cultura e cromossomos, o que não justifica e explica nada.


Mas porque essa crise é tão profunda?


Precisamos ter calma na análise.


Essa crise demonstra toda a fragilidade do sistema nacional político. Expõe o que todos já haviam tido a impressão: tudo é farinha do mesmo saco. Não importa a legenda, todos começam com p, de promiscuo. É Promíscuo do Trabalhador, Promíscuos da Frente Liberal, Promíscuos do Social Democracia Brasileira... E por ai vai... E isso dá desespero. Mas não só isso.


Lula foi eleito pela grande maioria da população, 56%, e isso é muita coisa. Significa que mais da metade dos brasileiros, votaram no barbudinho de língua presa, sem educação formal.


Estavam todos esperançosos com mudanças. Talvez, revolução Comunista, mesmo sem saber o que é isso. Votaram na figura do homem do povo, que fala como o povo, que nasceu no povo... Mas confundiram-se. Ou foram confundidos.


Todos se sentem, de certa forma, enganados e cornudos.


Não sabem bem se devem assumir que votaram na imagem de uma idéia, representada por um sujeito, sem condições de comandar uma nação, totalmente despreparado ou culpar o povo, afinal, foi o povo que o colocou lá. É sempre mais fácil jogar nas costas do povo ignorante.


Os intelectuais e artistas que o apoiavam, agora estão calados e não se pronunciam por nada. Acho que estão se sentindo como cornos mansos, afinal não tem mais o que fazer, a não ser assumir, que foram corneados.


Por falar em ser enganado, o nosso presidente, foi à tevê na última sexta-feira falar à Nação. Provou que não sabe o que fala e não sabe falar. Disse que se sente traído, enganado e que não vai deixar barato.


Eu já havia dito em outro texto meu, que o Presidente sabia ou era corno. Assumiu em rede nacional, que é corno, afinal disse foi traído pelo seu braço direito e seus pares. Mas após seu discurso, acabou virando corno manso, já que não tomou pulso de nada e não deu nome aos bois.


Com tantas CPI’s que estão pipocando por aqui, e acho pipocar um trocadilho muito bom, uma vez que, só se fala em milhões e milhões e mais milhões, e milho quando esquenta estoura, faz barulho, pula da panela e vira pipoca. E trocadilhos que não são frutos da nossa criatividade, já que Jacinto Lamas é um dos caras fundamentais dessa lamaria toda. Talvez, mera coincidência.


Mas como ia dizendo, são tantas as CPI’s, tantas listas, tantos nomes que parece até uma suruba. Suruba, é o que eles fazem nas horas de lazer em Brasília, entre foder um de nós aqui, eles fodem com umas ali.


Geane, a cafetina, providência as garotas ou garotos, porque, certamente, tem cara lá que “escorrega”, e nos pagamos as contas dos de 12 anos e das calcinhas.


Isso deve ser coisa da nossa cultura. Lembra do Itamar com a xoxota da morena estampada na capa do jornal? E da careca reluzente do Severino em outra capa de jornal, brilhava, mas o que foi a manchete, era a calcinha da mocinha que se esfregava nele. Deve ser coisa de macho!


Cornas mesmo são as mulheres dos nossos parlamentares.


E pensar que por um boquete, feito por uma gordinha e um vestido sujo com alguma porra estranha, o homem mais poderoso do mundo quase caiu, imagine se ele tivesse vindo aqui e encontrado com a Geane? Não seria um quase, seria uma guerra nuclear.


Mas eu fico pensando aqui. Tudo isso... Parlamentar que contrata puta, deputado que rouba dinheiro, contas no exterior, lavagem de dinheiro, badidagem, o Brasil sendo pilhado pelos homens que deveriam construí-lo... O Presidente, fraco, inculto e burro com seu discurso retrogrado sobre as elites... E nós?!


Bem...


Nós somos como as iniciantes garotas da Geane, estamos sendo fudidos por velhos gordos, asquerosos, barbados, barrigudos e feios, e aja Viagra para foder tanto assim! E que, na ingenuidade, acabamos com a boca cheia, de alguma coisa gozada e de gosto estranho, então perguntamos meio constrangidos:


- “O que eu faço agora?”, som abafado e língua amarrada.


O cara responde:


- “Você vai ter que engolir!”

[ o Presidente Lula, em um dos seus discursos, disse a frase mais famosa do Tetra Campeão Zagalo, "vocês vão ter que me engolir"]

Por Fernando Katayama 18 ago. 05

Wednesday, August 10, 2005

Meu papo com Jesus

Hoje para variar, fui tomar um café. Era final de tarde e fui a uma padaria dessas que tem aqui na minha cidade. Aqui tem uma padaria em cada esquina. Fui em uma delas. Famosa, bem freqüentada, fica bem em frente à Igreja do Bairro. Nem é meu bairro, passava por lá, mas enfim...


Chegando lá, mal tinha acabado de estacionar meu veículo locomotor de 4 rodas, um pouco antes de adentrar ao estabelecimento do português, me deparei, nada mais nada menos, com Jesus. É inacreditável, não é?


Jesus, ele com seu jeito característico. Sua barba. Sua roupa. Seu jeito de andar. De mexer os braços. De levar a mão, ao centro dos olhos, ali, pouco acima do nariz, bem no final das sobrancelhas. Pois é, Jesus. Ô cara.


Conheço-o há anos. Nossa... Faz tempo. Desde minha juventude. Do tempo das paixões ingênuas e avassaladoras. Das ansiedades. Da carta de motorista. Vivia, a incerteza certa, do tempo do vestibular. Grandes preocupações de um momento decisivo. E foi nessa época que conheci Jesus.


Não pensem vocês que foi na Igreja. Não foi, já que nunca fui à Igreja. Conheci Jesus no cursinho. Jesus dava aulas lá. Era meu professor. Época boa do cursinho. Apesar de levar à sério a escola e o cursinho, logicamente não deixava de curtir a vida. Juventude irresponsavelmente sadia. E Jesus fez parte dela. Acreditem vocês, que fui expulso do prédio onde era o cursinho, junto com Jesus, já que estávamos fazendo a maior zorra, encima de uma mesa.


Mas dessa vez, os anos passaram. Já não vivo mais a dura crueldade da decisão de ser ou não ser. Jesus já não é mais meu professor, e logicamente, nunca mais subimos em nenhuma mesa.


Em nosso encontro de hoje, foi bem diferente dos tempos do cursinho. Conversávamos sobre as coisas da política nacional, das discussões que temos e não temos aqui não país. De como está a juventude...


Nossas feições foram sempre de espanto, medo, incerteza, dúvida e pavor.


Falávamos da crise política que estamos passando. Sem palavras para descrever tanta roubalheira, dos caras-de-pau que são apresentados à nós. A corrupção que corre solta, louca e desvairada, como aqueles torcedores que invadem os campos de futebol pelados. Todo mundo vê, ninguém sabe muito bem o que fazer, damos risadas constrangidas, ninguém sabe quem é, mas todo mundo sabe que o cara ta pelado e correndo com o pintão balançando em rede nacional. Choca naquele momento. O juiz pára o jogo, catam o cara e tudo volta à normalidade.


Conversávamos também, da incerteza que será o ano que vem, que é de eleição. Ninguém sabe para onde é que vamos. Você sabe?


Caixa Dois também foi um dos nossos tópicos. Quem faz, corre o risco de ter que subornar o fiscal, ou então, de pagar a pesada multa. Quem não faz, corre o risco de fechar. Nosso Presidente afirmou que o caixa dois é usual, normal, corriqueiro, prática. Com o perdão da palavra, mas puta merda, o Presidente da Nação assumir um ato desses. Virou casa da Mãe Joana. Abordamos também a dificuldade de se fazer e manter um negócio no Brasil, com ou sem caixa dois. Hoje, com juros, aonde só ônibus espacial vai, torna muito mais atraente colocar o dinheiro no banco do que fazer ele ir ao mercado e circular.


Falando de políticas econômicas e finanças, não comentei com ele da nossa balança comercial. Me esqueci! Vocês podem dizer que ela, hoje esta com superávit. Mas minha gente... O que exportamos são commodities, não produtos da indústria. E só estamos com esse superávit porque estamos colhendo os acordos feitos com o dólar lá na casa dos 4! Quero ver o que vai acontecer quando sentirmos a baixa que o dólar esta sofrendo nesses dias de CPMI e corrupção desvairada.


Voltando a minha conversa com Jesus, perguntei sobre o Referendo ao Desarmamento. Disse que sentia a falta de debate. Nós vamos ser obrigados a votar, sim ou não, e como em todo processo democrático, é preciso debate. Mas não há. Para mim, é essencial o debate de um assunto tão delicado que merece até Referendo. Não é preciso que já se saiba, se sim ou se não, mas é preciso que se esclareça, os prós e contras. Se já leram meus textos, sabem que sou contra a proibição. Posso justificar de muitas maneiras, mas não o farei aqui.


Mas sinto falta do debate. Lembrei aqui de um filme clássico: “Doze homens e uma sentença”. Existe um remake novo, mas o original é com Peter Fonda e Jack Lennon, e vale a pena ver. Um resumo: um homem, negro, da periferia, esta sendo julgado por homicídio. Cabe ao júri dar a sentença. Pré-julgado, ele já está condenado à morte. Mas um jurado, não se contenta em condená-lo, ao menos, sem debater.


Nessa linha de conversa meu papo com Jesus, foi em direção a atual juventude, essa que hoje, esta na dúvida do que fazer. Jesus, que ainda vive a vida do cursinho, afinal vive em um, me disse que a molecada não quer saber de conversar nada, de ler, de saber da órbita que esta. Estão totalmente alienados. Me deu medo. Mas não os culpo. Alguns dos meus contemporâneos são exatamente iguais aos moleques de hoje. Também não sabem de nada e não querem nem saber. Debater então, faltam-lhes palavras, só ficam no “pá-daqui, pá-dali” ou então, pior, ficam só no “tipo assim...”. Não entendem nada de economia, política ou globalização. Vestem a camiseta estampada do Che, mas não sabem quem Che foi. Dizem, como nosso Presidente, “é culpa da elite burguesa”, mas não se lembram que fazem parte dela.


Como Jesus é do Cursinho, falei para ele que tive uma troca de e-mails com um colunista de um jornal, sobre a escola que se diz boa, porque prepara o fulano para a prova do vestibular, mas se esquece, que isso não o prepara para a vida. Tristeza no ar.


Disse ao meu amigo, que se ele quiser ficar milionário, que começasse a fazer aulas preparatórias para os concursos públicos. O novo filão, afinal, manar nas tetas do governo todo mundo quer, inclusive os caras que se vestem de Che. Com a falta de oportunidades no Brasil, conseguir a vaguinha no estacionamento da nação, é uma boa. Não é a toa que a cidade vizinha a minha, arrecadou no seu último concurso, por volta de 2 milhões de reais. 70 mil candidatos para 800 vagas. O dinheiro não dá para saber para onde vai. Para os 70 mil candidatos, não dá para ter certeza que vão ser efetivados. Mas dá pra ter certeza que esse é o tipo de coisa, acaba com o país. Prova que concurso público não serve mais para empregar. Prova que é preciso mudar.


Conversamos de outras coisas, mas não me lembro agora. Não se iludam pensando que isso foi um papo de horas, de uma tarde, de coisa de filosofias vãs. Não. Foi entre eu tomar meu cafezinho e Jesus comprar o pão. Tudo, no caixa dois.

[Como houveram inúmeros desentendimentos, Jesus, foi realmente meu professor no Cursinho. Esse é o nome dele, fazer o que!? E eu realmente me encontrei e tivemos o papo na padaria e fomos expulsos mesmo, pela zorra que estávamos fazendo]


Por Fernando Katayama, 10 Agosto 2005

Thursday, August 04, 2005

Sunday, July 31, 2005

Armando, o chefão

Vou deixar de lado a formalidade do Sr., Sra, Vossa Excelência e os demais outros, afinal não estamos em um debate na Câmara!

Se tivesse, já teria mandado à merda, todas as Excelências que lá estão!

Então, responderei a você, Gustavo!

Primeiro de tudo, não se preocupe pelo tratamento dado à minha pessoa. "Filho da puta" muitas vezes, é tão respeitoso, quanto um "sua Santidade". Algum amigo seu já te chamou de: "ô seu filho da puta, porra, que saudade!", ou então: "puta merda, esse filho da puta ai, é um puta cara, um puta amigo, gente boa pra caralho!". [note na última frase: de 18 palavras, 6 foram palavrões. Não contei as vírgulas]. Então, desencana.

Mas como você não sabe meu nome, esclareço: F, é de Fernando. Logo, o artigo passa a ser: "o".

Mas como não sou Pasquale, deixo o português de lado e vamos ao que interessa.

É, Gustavo, só você respondeu meu e-mail! Então respondo a você, mas envio a todos, para que participem, se quiserem.

Ao contrário de você, tenho certeza que bandido vai votar "a favor". Ele vai exercer seu direito de expressar sua opinião! Outra questão, que fica para depois: porque que nosso direito de voto, é uma obrigação?

Lógico que os marginais, que devem ter título de eleitor, afinal tem um montão que, além de votar, são eleitos ou querem se eleger. Então os bandidos irão lá no dia, e apertar o botão, "sou a favor do desarmamento".

Se eu fosse um chefão do tráfico, eu mandaria toda minha comunidade [para ser politicamente correto, e não falar, favela], votar no "sou a favor".

Imagine só, a Rocinha [RJ], Morro dos Macacos [Santos], Oziel [Campinas], Alagados [Salvados] e todos os outros, votando no "sou a favor". Que mundão de gente!

E nós, os chefes da bandagem, lá no alto do morro, só observando atendo. Lógico um churrasquinho e pagode, ta bom... Em alguns locais, samba ou axé, acompanhando o referendo.

Ahhhh... Eu estaria vibrando, torcendo mais que final de Copa do Mundo. Soltaria todos os rojões, que uso para notificar a "comunidade" da chegada dos gambés Nem que fosse com gol de mão, impedido, no último minuto da prorrogação, para festejar o final do bendito referendo: o sim para a proibição do comércio legal de armas e munições, e do porte legalizado de armas de calibre civil.

Mas mais feliz que isso!

Como tenho um bom assessor de marketing, [é nossa corporação é bem estruturada. Aqui tem gerente de contas, logística, comércio exterior, onde é obrigatório saber falar inglês e espanhol fluente, setor de compras, metas de vendas, relatórios de market share, estamos até pagando para um de nossos executivos, o MBA na FGV], já tô até vislumbrando a potencialização do 2º mercado mais lucrativo do mundo, de ROI altíssimo e seguro.

Ah... [supiros, com cara de paisagem e pensamento distante] serei dono dos melhores mercados do mundo: drogas e armas do mercado negro. Meus olhos já estão brilhando, vendo as malas de dólares que vou faturar!

Ai, então, eu, não contendo de emoção gritaria, com meu AR-15 na mão, lá do alto do morro, dando ordem para o churrasco durar mais três dias de festa, tudo pago, lógico:
"oooobbbbbaaaaaaaa, agora só EU tenho!!"

É, mas eu não sou!

[para entender, esta é uma troca de e-mails. Aconteceu depois de um texto recebido pela Internet. Não conheço o Gustavo, nunca o vi. A recíproca, logicamente, é verdadeira. E para quem não sabe AR-15 é um fuzil de grosso calibre usado pelas forças armadas, não as nossas, mas as norte-americanas]

Por Fernando Katayama, 29 jul 2005.

Pé, faca, pedra e bala

Acredito que desarmar a população não é o melhor caminho para acabarmos com a violência que temos aqui.


Armas de fogo são somente um do muitos tipos de arma. Talvez, pelo barulho, pelo filmes, por nossa ignorância acabamos achando que é mais perigosa que qualquer outra arma.
Para pensarmos vou dar alguns exemplos de algumas outras armas, não de fogo, mas armas mesmo assim.


No filme "2001", o macaco-homem, usa um osso fenural como arma. Há séculos usamos arco e flecha e balestras, hoje se pode comprar em quaisquer shoppings centers da cidade, sem registro ou idade. No meu restaurante, minha maior preocupação eram as facas, imagine só, a briga de dois cozinheiros municiados de facas e panelas quentes! Parece brincadeira, mas no ano passado, um auxiliar de cozinha matou o patrão com 20 facadas. Já ouvimos histórias de pedradas, pauladas (lembra da briga no estádio do Pacaembú?), e por incrível que pareça, pontapés.


É, no mês passado, um motorista de caminhão, atropelou um carro, parece que perdeu o freio, e passou por cima de um carro, com 5 pessoas dentro. 4 morreram no local, 1, não me lembro, mas parece que morreu no hospital, e o motorista morreu à pontapés. Alguns bateram tanto no homem que ele morreu, linchado.


Como disse o texto, a população ordeira, não sai por ai, matando. Acidentes às vezes, acontecem, mas só são reportados os casos de armas de fogo. O uso de armas de fogo que resultaram em ações benéficas, não são reportados, chamado de "pronto emprego". Também não são reportados os outros inúmeros casos.


Mas não adianta nada eu ficar aqui, falando pelos cotovelos sobre armas e os tipos que existem. Existem até pessoas, que são armas-brancas. Sabem matar com as próprias mãos.
Mas passaria horas falando do nada.


O importante é saber qual é a causa da violência. E de que violência estamos falando. Da viloência, atendado a vida ou da violência que no primeiro momento parece ser nada, mas no desencadear, afeta toda a cadeia e chega até a ação criminosa de fato.


Vejo o Rio de Janeiro. Dominado pelo tráfico de drogas. Pergunto isso é causa ou consequência? O crescimento da bandidagem é causa o consequência? A violência que temos nas ruas dos bandidos pela-saco, é causa? Consequência?


Vivemos o momento crítico da nossa democracia. Estamos assolados pela currupção e falta de punição. Isso é violencia? É a causa? É a consequência?


Lembrei também de outra violência, do uso da internet. Vocês viram? O moleque lá trepando com a garota, ao vivo, pela internet. Violência? Falta de consquência? Falta de educação? Sei lá.
Mas você vai proibir agora o uso da internet? Poderia falar aqui também do Gaudino, o índio pataxó.


Não é a internet que é ruim. Álcool tambem não é. É o mal uso deles.


Assim como qualquer arma, especialmente, as de fogo, que estamos discutindo aqui, não são elas que são o problema. Mas como e quem as usa.


Uma coisa eu tenho certeza: bandido não vai a polícia, ao Ministério, pedir a documentação, pagar caro por ela, fazer os exames e cursos para o uso.


Muito menos usar o calibre permitido. Ou então esperar 60 dias para ser liberado. Tudo com nota fiscal.


Bandido usa arma de contrabando. Comprada no mercado negro, e muitas vezes, provinientes do Exército ou Polícia. O calibre é grosso, de granada de mão à morteiro que derruba tanque.
Isso sim tem que ser proibído. Como?


Fica para o próximo texto!

[Foi uma resposta a um texto recebido pela internet, de autor desconhecido sobre o Estatuto do Desarmamento]

Por Fernando Katayama 27 jun 2005


Wednesday, July 20, 2005

Beija-flor [Hummingbird]




foto by Fkatayama 1993

texto: J. Lennon
copyrights are proctected.
Ask me for copy.

Monday, July 18, 2005

Como será a empresa do amanhã?

Rede? Fusões? Parcerias? Todas juntas?

Qual dessas é a melhor solução? Que modelo de negócio esta surgindo? Para onde vão as empresas? Quantas serão?

Temos essas respostas? Não, não temos! Será que as grandes só vão emprestar sua marca para que as linhas de montagem sejam feitas por pequenas? Será que as pequenas vão se rebelar, para ai se tornarem grandes (teoria do caos). Será que a existência será simbiótica?

Vamos ver do ponto de vista da empresa de um homem só, será que ter o domínio de toda cadeia produtiva é a solução? Parece-me que não! Vejamos:

Há um tempo a trás, quando fazia projetos de arquitetura, eu era responsável por toda a cadeia e logicamente não dava conta! Como prospectar, pensar, desenhar, atender, tudo de uma vez só, sendo que era preciso ter volume de serviço, mas era impossível fazer tudo ao mesmo tempo, como se fosse cobrar o escanteio e cabecear! A melhor solução: parcerias, trabalho em rede, prover solução e buscar formas para resolução do problema, superando barreiras que engessam a produção.

Mas conheço uma empresa, do ramo hospitalar, que fabrica carinhos para anestesia, onde tecnologia é alta e a eficiência tem que ser 100%,se não o paciente pode morrer. Essa empresa chegou a ter 90% do mercado, e lá, quase tudo era produzido por ela, com exceção de alguns componentes como o rodízio, que eram italianos.

Não acho que exista um modelo certo ou errado, existem vários que estão certos, e tudo depende de como é aplicado, e errado é escolher um modelo que não satisfaça sua necessidade. Mas pior ainda é não ter o que escolher! Ai meu colega, ponha os dois pés no freio, e pare! Alguma coisa no seu modelo não esta funcionando há muito tempo!

Agora se eu fosse um dessas gigantes?

Ah! Eu teria em mente algumas coisas: Solucionar da melhor forma a necessidade do cliente, porem, fazendo de maneira inteligente para minha empresa, buscando otimizar os lucros, e se para isso eu tivesse que fazer parceiras, assim o faria, se tivesse que fazer alianças ou então gastar um tempo pensando como seria melhor, faria isso! O meio não me importa, desde que seja a melhor escolha para o momento e que a minha estrutura fosse flexível e sensível às mudanças do globo.

Outro dia, lendo uma revista, dessas semanais de atualidades, estava lá na chamada: Angélica (apresentadora infantil) com problemas! Pensei: “como pode se ela tem tanto dinheiro?!”. A matéria falava que ela estava perdendo mercado e que suas patentes estavam caindo e que não se produzia mais o número de coisas com a marca dela. Porque? Esta é a questão!?

Meio obvio, mas ela não enxergou! Satisfeita com o que ganhava, se acomodou e acho que nunca mais iria sair do pedestal! O mercado dinâmico não aceita isso, é preciso estar “ligado”, se preferir, plugado, nas mudanças do mundo. Ficar sempre desconfortável com a sua situação e buscar coisas novas, a Angélica não viu a principal mudança: ela mesma!
Foi nessa revista também que li alguma coisa sobre Comunidade Européia... Pára de coçar a cabeça com essa cara de ué! O que tem haver a CE, ALCA com modelo de negócio e política? TUDO!

Sem as forças políticas, nós nem capitalismo teríamos! Mas a grande questão é ate onde o governo e suas políticas podem e devem interferir nas empresas? Será que o governo deve servir de ponte entre blocos? Ditar as regras e só? E no caso do Brasil, onde o governo vive em picos de credibilidade que afastam investimentos do país? Será que deveria ficar a distancia e deixar o mercado livre de usa interferência ou funcionar de forma ativa para o crescimento de nossas empresas?

Se a ultima hipótese acontecer, e o mundo for de algumas poucas empresas, como disse antes, como ficaríamos?

Será que estamos indo para uma nova forma de capitalismo? Ou uma nova forma de economia uma vez que nossos valores estão mudando?

Por Fernando Katayama 28/03/2002

Contratar um Herege?

Até que ponto devemos contratar pessoas sem experiência?

Quando é que é saudável proporcionar a indisposição entre as partes?

Será que as empresas estão prontas a entender os hereges?

São as perguntas que faço.

Acredito que hoje vivemos um grande dilema: precisamos de idéias novas, novos formatos e mudanças continuas porém, as empresas ainda pensam de forma arcaica e obsoleta, lenta como paquidermes se movendo na lama.

Como justificar que precisamos de uma cabeça “virgem”? Como convencer que é um investimento à longo prazo e que dará certo, se a única certeza é a própria incerteza? Como conseguir fazer isso em uma empresa enxuta e pequena sem recursos suficientes para poder errar? Ou será que isso vale somente para as gigantes que possuem verbas para isso?

Se as empresas hoje pensam como pensavam e as pessoas ainda estão voltadas para o resultado certo, sem saber que risco devemos tomar e se valerá a pena no futuro e ainda assim querem sempre uma novidade é uma grande contradição. Vamos pegar um exemplo que não é de uma empresa grande ou reconhecida, é minha mesmo. Vivo hoje um grande dilema: mudança de área de atuação. Como sabemos sou arquiteto por formação, coisa que conheço bem e executo-a com grande chance de acerto, contudo insatisfeito, estou mudando de área e para isso deveria seguir o caminho certo e garantido que todo estudante passa, mesmo não tempo uma formação tradicional de negócio? Ou será que apostar em um modo novo sem seguir os protocolos é uma solução a ser testada? E se falhar?

Agora estamos falando de indisposição... deixar o outro inquieto e inconfortável, e o grande problema é saber onde parar! Concordo que trazer a discussão, argumentação, críticas para o trabalho tem seus benefícios claros, pois esse exercício proporciona um ambiente favorável a inventos e idéias, a mudanças e descobertas, mas o ponto é: como educar as pessoas ao debate? Ou será “embate”? Muitas empresas ainda vivem o estilo “faça o que eu digo pra fazer”, rígidas não permitem diferentes pensamentos e assim novas idéias. Como modificar isso?

Coisa que leva a outra como conviver com hereges? Muito bem colocado por Gary Hamel, em Liderando a Revolução, onde ele diz: “quer revolução, inovação? Contrate um herege!”, lógico só pessoas desprovidas de pré-conceitos e providas, talvez, de insatisfação e inquietude podem querer mudar o sistema existente.

Mas não é tão fácil! As empresas hoje querem pessoas que se encaixem perfeitamente nos espaços , como aquele joguinho para nenês onde você tem estrela, circulo e quadrado e tem que encaixar as peças nele. As empresas funcionam assim, querem suas peças estrelas, quadrados e círculos, nas estão preparadas para hereges e não os querem. Não podemos esquecer que as empresas são feitas de gente, e que gente tem ciúmes, medo e pavor, quem é muito diferente bota medo. Quem ameaça o superior, com idéias ou atitudes, da pavor. E quem tem idéias novas e válidas, da ciúme.

Como modificar o velho e alcançar o novo?


Por Fernando Katayama 03/05/2002

Friday, July 15, 2005

Cueca de Luxo

O dia começava ensolarado. É inverno. E inverno em pais tropical é muito gostoso. Bem, eu gosto. Fresco, solzinho que esquenta, nem lá muito calor nem muito frio.

Coei meu café. Aroma matutino essencial, afinal, cresci com esse cheiro pelas manhãs, e quando não o sinto, parece que falta alguma coisa no dia. Tudo estava, como diria um amigo, “indo pelos conforme”. Mas ai aconteceu a exceção, mais uma vez, a regra da exceção, e da regra, é não ter exceção.

Eu não li os meus jornais. Como todos vocês sabem, eu leio meus jornais pela manhã, assim que acordo junto com meu café. Ao lê-los, me intero das notícias já antigas do dia anterior, dou risada das charges, choro com as tragédias e tudo mais.

Mas hoje não li. Porquê? Vim direto com minha xícara, escrever.

Talvez pela ansiedade em colocar para fora minhas idéias, talvez pela inconformação, não sei.


Acompanho os últimos acontecimentos no Brasil. E logicamente, fico apreensivo, chocado, espantado e enojado com o que estou vendo. Impossível acreditar em tudo, mas impossível não acreditar. E é, mais tragicamente cômico, a palavra “acreditar”, dar crédito, à todos aqueles que se acusam frente-à-frente, de roubo, lavagem de dinheiro, troca de favores e tudo isso com os nosso créditos, afinal pagamos nossos impostos.

Por falar em imposto, ou seja, aquilo que nos é obrigatório e foi decidido por um treceiro, em um show da Polícia Federal, uma estrela da sociedade acabou ontem no xilindró por algumas horas.


Dona de uma das marcas mais cobiçadas pelos ricaços do Brasil. Fez festão com direito a vinho espumante de primeira e caviar. Saiu em todos os jornais do Brasil e logicamente em Caras, o periódico que determina os relacionamentos amorosos dos famosos, uma vez que, a cada 3 exemplares nas bancas, tá, com um chorinho, 4, mudam os pares, mas as pessoas continuam as mesmas. E dessa vez quem fez o show, foi a PF. Não tinha champanhota e nem caviar. Talvez, um cola do mais barato e pão com mortadela, e olhe lá!

O caso foi, que em uma fiscalização de “rotina”, em 2004, os agentes da PF encontraram uma carga da loja, com algumas notas frias e à partir daí, começaram a investigar, e por incrível que pareça, finalizaram as investigações nessa semaninha. Formação de quadrilha, sonegação de imposto e contrabando. Não é pouco não.

Posso então levantar algumas suspeitas e talvez tirar algumas conclusões.

Suspeito que, como sempre acontece na política mundial (ufa! Não é só aqui! Ainda bem por um lado, mas por outro, triste constatação: muda a cor da pele, a religião, o sotaque, o idioma, “mas os meus cabelos continuam os mesmos!’, é: os humanos são idênticos, afinal diferenciamos apenas um gene da minhoca), criam um caso para desviar a atenção de outro. E isso é dito há anos. Lembro da história de 70. Brasil campeão. Ditadura comia solta nos calabouços do DOICOD, e o povo pulava feliz da vida com a conquista do Tri. E por ai vai.

Por esse raciocínio simplista, suspeito que o estardalhaço feito pela PF, é simplesmente um desvio de atenção.

Pelas acusações que sofreram, talvez, não tenha jaula suficiente no Brasil para colocar todo mundo lá. Vamos ver:

Formação de quadrilha. Talvez ano que vem em Brasília, não tenha mais festa junina, que dizer pode até ter, mas quadrilha não terá, afinal vai estar todo mundo na cadeia. E por falar em cadeia, lembrei do Lalau, que ta preso em sua mansão, mas cadê o resto do bando?


Contrabando. Os agentes penitenciários vão ter que fazer curso de chinês e coreano. A rua 25 de Março em São Paulo e suas imediações vão ficar vazias e os camelôs do Brasil à fora, vão disputar espaço no pátio, durante o banho de sol. O Brasil segundo organizações internacionais, é um dos principais focos de pirataria e contrabando mundial.

Sonegação de imposto. Manda fechar o Brasil, porque não há empresa aqui que não de uma facadinha no Leão. Com a carga tributária que temos, é impossível pagar todos os deveres com o Estado. Se fizer isso, fecha. Eu fechei. Roubou um ou um milhão, só muda o número de zeros, o verbo é o mesmo.

Não acredito que o governo do Molusco, seja o mais corrupto de todos. Talvez, o mais fraco, e que não conseguiu segurar com perfeição a corrupção que assola nosso país desde os tempos do extrativismo de recursos naturais. Acredito que nesse governo, esta só aparecendo a sujeira acumulada.

Através dos anos de oposição, o PT, ensinou seus adversários a fazer certo o que ele tentava por anos. O PT em sua história sempre foi oposição, talvez a oposição de guerrilha, e nunca conseguia o que queria. O Lula, então sindicalista, estava nas portas das fábricas fazendo piquete. Por 20 anos ensinou à seus adversários políticos que isso não funciona. E esta tomando o troco. Está aprendendo como fazer para perder a governabilidade, perdendo-a. E enquanto isso, Lula usa seus nove dedos para se segurar lá. Talvez, o mindinho faça falta.

Lula se desfez. Não sei se, se vendeu. Mas certamente se desfez. Tudo aquilo que o colocou lá, não existe mais. Teve que ceder, ceder, ceder. E se fosse eu pastor, diria que vendeu à alma, mas não sou, se não, estaria milionário com algumas malas de dinheiro vivo, de dízimos doados.

O PT, que parecia ser o único partido do país, provou que o pluri-partidarismo nacional não existe. Afinal todos eles fazem parte de um único bloco.

O Lula e sua bandeira vermelha petista, para muitos era a cor da mudança e do povo no poder. Mas como disse um filósofo francês, cujo nome não me lembro: “quer corromper um homem honesto, dê-lhe poder”.

Hoje, não se vê mais a cor da bandeira, não está suja de lama, porque da lama ainda é possível fazer tijolo ou criar caranguejo. Está encoberta de dejetos fétidos, que não servem nem para adubo. Nunca mais ficará limpa. Está tão Collorida, quanto aquela do governo que o PT e o Brasil todo se opôs. A estrela, não é cadente, o sinal de esperança. É decadente.

Estamos tão emaranhados com a bandidagem que não dá mais para temer só o bandido malaco, aquele que anda com trejeitos, fala esquisita, português do mais chulo, mora em casebre, fede e se veste mal, e com a maior cara de pau te assalta em plena luz do dia, no centro da cidade.

Hoje, bandido fala o português correto, tentando ser o mais polido, como “vossa excelência...”, “nobre deputado...”. Veste terno. Usa perfume. Anda de carrão e mora em casas confortáveis. Mas ainda todos têm trejeitos e a cara de pau. Alegam sempre desconhecimento. Pergunto: como que ninguém sabe de nada e todo mundo sabe de tudo? Como que a senhora que falei lá no começo, diz que só entende de marketing, mas que de contabilidade não sabe, se para fazer um plano de marketing é preciso entender de contabilidade? Como que o presidente não sabe de nada, mas seu assessor direto está coberto de acusações?

Você está me cobrando as conclusões que disse que talvez teria.

Concluo que o próximo lançamento de marketing da Daslu será uma cueca para dois sacos. Um de dinheiro.

Por Fernando Katayama 14 julho 2005



Roberto J X Roberto J

Ontem assisti dois programas na televisão. Canais diferentes. Personagens diferentes. Horários diferentes. Assuntos diferentes. Parece que tudo é para ser diferente.

Acordei hoje pela manhã. Abri o jornal como costumo fazer todos os dias. Hábito que cultuo ao longo da minha vida, desde que era pequenino, e me lembro de gostar de ler a parte de cultura, afinal é lá que está as tirinhas de jornal, doce ingenuidade infantil. Agora leio o jornal todo.

Antes quando criança achava graça nas tiras, dava risadas e minhas leituras não passavam de alguns minutos. Hoje, não sei bem como expressar meus sentimentos, mas ainda dou risada das tiras.

Mas eu estava falando dos programas da televisão, não é?

Foram incrívelmente ruins, mas posso dizer que mesmo sendo da pior qualidade, posso tirar algumas conclusões, e não fique cheio de esperança, achando que eu vou te dizer alguma coisa sensacional, pois eu não vou.

Em um, o Roberto J. vestindo seu paléto azul marinho ou preto, não sei bem. Provavelmente um Armani. Cabelo bem cortado, grisalho. Gravata de seda italiana. Ar de arrogância e nariz empinado. Caras e bocas. Alto, olhos azuis, réplica brazuca do modelo importado.

No outro, o Roberto J. vestindo seu paléto feito sob medida, meio amarrotado, azul marinho ou preto. Cabelo estranho, me aparece mal cortado. Fios brancos. Gravata deve ser de seda italiana. Ar arrogante e de esperteza. Caras e bocas. Estatura mediana, olhos pretos, modelo brazuca original.

No programa, Roberto J., tenta fazer que o jogo demonstre o meio corporativo e suas estratégias. Muito ruim, afinal de contas o mundo corporativo não vive de estratégias a curtíssimo prazo. Não se avalia o conhecimento e expertise para corporações, em games televisivos. Nesse show, giram milhões de reais.

No outro programa, Roberto J., tenta fazer o jogo que demonstre o meio político e suas estratégias. Muito ruim, afinal de contas, o nosso mundo político, não tem estratégias honestas e claras. Dizem que estão julgando uma suposta corrupção, mas isso é somente a pequena ponta do Iceberg. Nesse show, giram milhões de reais.

Mas como já disse, foi ontem tudo isso.

O Roberto J., estava lá sentado, cercado de “colegas”, questionando-o sobre fraudes, compras, corrupção. E todo mundo de rabo preso. Roberto J., que fala muito bem, devolve as acusações, rebate, esquiva e ninguém consegue não desfazer o sujeito, já que todo mundo que está lá, é do mesmo saco.

O Roberto J., estava lá sentado, cercado pelo seus “assessores”, politicamente correto, afinal é um homem e uma mulher. Questionando os participantes do game, sobre suas condutas.

Os participantes com o rabo preso, não conseguem se justificar pelas suas falhas. E ai está, talvez, a demonstração que me assusta. A maior de todas as semelhanças entre os dois espetáculos mostrados na Tv.

Nesse game, três participantes foram colocados à serem sabatinados por suas ações ou falta dela. Dois deles, tentaram iludibriar, usar da malandragem, da esperteza, da dúbia interpretação dos fatos. Tentaram tirar proveito. Ganância. Mesquinharia. Falta de educação, honestidade, ética e decoro. O outro, que deveria ser o “líder”, “a locomotiva”, “o cérebro”, “o articulador” e por fim, o responsável pelos seus subordinados, alega, falta de conhecimento, insubordinação e traição.

Preciso dizer que todos os três tem seus 20 e poucos anos.

O que me dá medo, é ver o nosso pais indo nessa direção, sem nenhum governo. Por esses dois quadros, chego a conclusão que o regime que está instaurado aqui não é a democrácia, muito menos uma ditadura e não passa perto da anarquia. O regime, chamarei de “Malandragem do Gerson”. Ser malandro e ter vantagem em tudo, e perdoe-me o Gerson, meia da seleção de 70, mas a expressão popular é essa.

Pelo exemplo que dei, a juventude, já aprendeu que é preciso ser malandro e tirar a vantagem de tudo e de todos. Que assumir seus erros é burrice, e melhor mesmo é passar o outro para trás. Justificar que “não sabia”, pricipalmente para o “líder”, é a justificativa que cabe. Mas não cabe. O líder deve saber de tudo, ou então, servirá o provérbio popular do corno: todo mundo sabe, menos o corno, que é o último a saber.

Assim nosso povo aprendeu a viver, achando que a corrupção é normal, e quando uma coisa tão absurda como essa, passa a ser normal, minha espinha treme de medo e me dá frio na barriga.
Será que existe um parralelo traçado com os dois Robertos e seus respectivos shows?

Roberto J. está sendo sabatinado pelo Congresso sobre os atos ilícitos praticados pelos partidos nacionais. Pela falta de ética e honestidade. Pelas “malas pretas”, gíria que, tomo a liberdade, de trazer do nosso futebol, e ela nem é tão nova assim. Roberto J. alivia o Presidente da República, dizendo que ele é um pobre coitado, e que não sabia de nada, e então, como já disse em algum parágrafo desse texto, concluo que ele é corno, uma vez que corno é o último a saber.

No game de Roberto J. o líder foi mandado embora, pela falta de liderança, ignorância dos fatos e falta de controle dos seus imediatos.

Mas não me esqueci não, que havia dito que lera o jornal esta manhã. Li o articulista do Jornal Folha de São Paulo [01/06/2005], Clóvis Rossi. Nele o articulista diz: “Fujamos, porque quem pauta o Brasil é o pântano”. E infelizmente esse é meu sentimento. De fuga. Ir embora.

Em 70, durante a ferrenha ditadura Médici, o bordão do gorverno era: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. E a resposta popular era: “o último que sair apaga a luz do aeroporto!”.

Retrocesso à 70? E agora, fugimos?

O Brasil está atolado, soterrado de lama podre. A desgovernabilidade. Corrupção no seu melhor modelo.

Como sugere Clovis Rossi em seu artigo, estamos sendo pautados pelas palavras do Roberto J.. A Bolsa de Valores, treme ao vê-lo sentado na cadeira da CPMI. O dólar cai. O mercado pára. O juros sufocam os investimentos. E os investidores externos não arriscam. Corrupção assola. E o mercado não aceita corrupção.

Roberto J. assume o papel de Roberto J., muda a frase, mas o efeito é o mesmo. Fala da corrupção em Furnas, caem os diretores. “Zé, sai daí”. Cadê o Zé, para onde foi o Zé?

E se fosse game-show, seria “Zé, você está despedido!”

Roberto J., comanda o jogo.

para esclarecer:
Roberto Jefferson, deputado estadual, presidente do PTB, peça chave de diversos escândalos no Governo.
Robero Justus, publicitário, comanda o game-show televisivo, "O Aparendiz".

Fernando Katayama, 01 Julho 2005

Cotas no Vestibular

Cheiro era de desinfetante com anestésico. A luz era do tipo fluorescente. Deixava tudo com um tom meio esverdeado. Haviam algumas pessoas ali. Dava-se para perceber que, algumas delas estavam mais nervosas, apreensivas que outras. Andavam de lá pra cá, sem saber se sentavam ou se continuavam em sua caminhada circulatória, praticamente infinita.

Coração, já não se sabia, se pulsava de cansado ou de aflição.

Todos ao redor estavam ansiosos. E aquele cheiro ainda estava no ar. Não havia fumaça, afinal é proibido fumar, mas alguns quase não agüentavam, e unhas iam embora. Medo, angustia, ansiedade. Um misto de tudo estava naquele lugar. Luz fria. Cheiro forte e cadeiras pouco receptivas.

Em um momento esplendido tudo mudou! A luz já não importava mais, a cadeira e o cheiro, aliás, que cheiro? Tudo já fazia parte de um passado longínquo, mesmo sendo há instantes atrás.

Como em uma apresentação no mais famoso ballet do mundo, vieram, um por um para o colo de seus tão desajeitados e ansiosos pais. Sim, haviam nascido ali, naquele exato momento, maravilhosos bebês. Um de cada cor, de cada credo, todos com carinhas de repolhos do final da caixa, para todos ali, eram as mais lindas coisas do mundo.

Todos vieram nus.

Guardem na memória está imagem, esta cena.

Outro dia lia um jornal aqui cidade, talvez o maior, não sei. Uma reportagem me chamara a atenção. Falava sobre uma famosa universidade. Uma das mais conceituadas, vistosas, importantes e concorrida do país. Era uma matéria sobre os pontos que são acrescidos à prova do vestibular dependendo da sua cor ou escola que freqüentou, ou quem sabe ambas. Me espantou.

Nesta semana, outro jornal, de circulação nacional e de grande prestígio, mandou matérias com o conteúdo relativamente parecido, falando sobre a “cota negra”, que as mais diversas universidades são obrigadas a ter. Uma outra grande, se não a maior delas e mais concorrida, havia tirado a vaga de um aluno que obtivera os pontos necessários, e colocou um outro, justificando o ato, pela lei da cota. Mais uma vez me espantou.

Fiquei aqui pensando nisso. A justificativa para isso é muito simples:

É preciso dar chance às classes menos favorecidas.

Sinto um cheiro diferente do primeiro, que era de desinfetante com anestésico. Pura demagogia no ar.

Oras, justificar pela cor que são desfavorecidos é injusto e preconceituoso.

Sim, preconceituoso. Me desculpe a Sociedade dos Amigos dos Pretinhos Desamparados, mas se achar menor por ser preto, desculpe-me é assumir sua própria baixo auto-estima. É preconceito se achar menos favorecido, ou desfavorecido pela sua cor. Se fosse assim, Adolf Hitler estava certo, e todos nos voltaríamos às câmeras de gás, inclusive eu, que sou todinho misturado.
Nosso país é pardo, istó é, a maioria é misturada, seja com pretos, amarelos, vermelhos, verdes, brancos, marrons, anil, fúscia (acho que é assim que escreve, essa cor que só mulher sabe qual é), sei lá... E pouco importa de que cor somos!

Acho até engraçado quando um negro é chamado de preto e fica bravo! Imagine só, chamá-lo de branquelo, seria muito mais estranho. Mas logicamente, depende do tom dado! Nós homens, muitas vezes, nos chamamos de “filho de puta”, querendo dizer, “meu, te amo!” e não achamos nada ofensivo. Mas chamar preto de preto, dá até cadeia.

Mas meu ponto aqui não é só falar dos negros, pretos, sei lá como classificar, mas é das cotas do vestibular!

Na matéria que li, no jornal da cidade, a tal universidade premiava o preto com 40 pontos, se fosse de escola pública, mais 10, para as duas, somava-se 50. É uma grande vantagem nessa briga, parecida com os 100 metros rasos, onde 1 milésimo pode valer o ouro.

No outro jornal, destacava que algumas universidades estavam trocando, como já falei, vagas para os alunos “de cor”, e tirando os que “não tem cor”, para cumprir a lei de cotas. Surgiu então o problema que muitos haviam se inscrito como “negros”, mas na hora do “cara a cara”, tava lá um branquelo! Começou-se a se questionar como definir o que seria preto ou não. Aqui não se encaixa mais a famosa expressão “tudo no preto e no branco”, já que ninguém mais sabe o que é preto.

Mas não só isso, começaram a ter acusações de falsidade ideológica, que lógico, você não pode ser o que não é. Mas me parece que todo preto quer ser branco e todo branco quer ser preto. Umas até pediam fotografias, para não deixar dúvidas! Um ato que no mínimo, é grosseiro, além de ser separatista. Ah! Eles se esqueceram das mágicas gráficas, onde qualquer um pode fazer uma foto branca ficar preta!

Já que estaremos lá, nos Estados Unidos, beirando as décadas de 50 e 60, onde preto tinha banheiro próprio.

Mas sabem, fiquei indignado com isso. Se para entrar na universidade eu tenho que ter tido um bom estudo desde pequeno, ter tido não só informação, mas formação também, que raios de diferença faz a raça ou a escola que estudei?

Nenhuma. Lembra do começo do texto, quando nasciam os bebês, e todos nus, todos lindos? Todos lindos e iguais, por mais feios que eram.

Imaginem só, se fosse assim: pretos ou pardos, 40 pontos a mais; índios, mais 50, afinal tem pouco índio mesmo; japoneses ou descendentes, já que são muito inteligentes, tem 50 pontos a menos (ou então matem todos na entrada); judeus, que são ricos, pagam 4 vezes mais na inscrição e no caso de universidades particulares, a mensalidade é o dobro; norte-americano ou descendente não entra, afinal somos todos, inclusive estes, anti-Bush; se estudou em escola pública ganha 10, mas se veio de escola particular, perde 30; e assim vai...

Pura hipocrisia e demagogia. As diferenças sociais e culturais aqui é que são gritantes e preconceituosas, independentemente da raça. Eu para ter a educação que tive, devo isso ao esforço de meu pai e minha mãe, que fizeram tudo possível para me dar a melhor. Vejo os filhos de minha assistente pessoal doméstica, não gostos de chamar de empregada, ela também se esforça para que os filhos dela tenham a melhor educação.

Sim, também acho injusto, mas não é possível aceitar fazer a diferenciação no final a cadeia escolar, ainda mais por raça ou tipo de escola.

O problema é que os demagogos não querem ver, ou se vêem, se fazem de cegos, que é preciso ter base. Escola de base. Educar o povo todo. E ai sim, todos teriam as mesmas condições. Mas hoje, dificilmente terá um bom estudo quem não pode pagar. Assim como eu, uns outros tantos de milhares pagaram a vida toda para estudar. Enquanto pagamos impostos e mais impostos que deveriam ser revertidos à nos mesmos e não são.

Quem que nunca ouvi o pai, ou alguém mais velho dizer, que o “colégio do estado é que era bom, os particulares, só para filhinho de papai, que não queria estudar”.

Nosso governo esta omisso nisso. Quer encher os próprios bolsos e o povo que fique com a sobra. Se sobrar.

É as cotas já estão divididas: pretos, vermelhos, amarelos ja tem suas porções definidas. E nós sabemos também que alguns filhos, e não precisam chamar Jr., podem ser Luis Inácios, Severinos, Fernandos, Josés, Antonios, Getulios..., tem suas cotas definidas, 100% de aprovação, seja na Camara, no Senado ou até mesmo na Presidência, afinal são todos eles Filhos da Puta.

Por Fernando Katayama, em um dia deses. 2005

Estava Clara

Estava clara. A lua brilha no alto. As estrelas eram inúmeras. O céu negro contrasta o brilho dos astros e ficam então, muito mais brilhantes.

O calor é inconfundível. Quente. Calor típico de uma noite de verão. Havia até um brizinha, o que ajudava a refrescar um pouco, mas mesmo assim, o calor era grande.

Lá, a penumbra da noite, deixava-a mais agradável. No fundo uma música calma, não sei dizer qual era, talvez Handel, talvez Bach, não importa. A pouca luz, acalmava tudo. Música, pouca luz, o barulho dos insetos noturnos, algum galho que com o vento cantava também... Fez-se então uma pequena orquestra, de ruídos improvisados, pela conjunção dos mais diversos sons. Sapos, grilos e folhas.

A lua observada tudo de lá, deixando a cor prata predominar o lugar. De longe, sente a calma e a beleza.

A poucas nuvens no ar, não interferem em nada. Aliás, ajudam a dar ao céu negro, pintado de estrelas, mais volume e diversas perspectivas. Desenhos inusitados aparecem e desaparecem, e tudo depente para onde se olha. O reflexo prateado resulta em contrastes inesperados nas núvens, aparentemente brancas, afinal é noite de verão, não dá para saber se são brancas ou não. Mas belas, certamente.

Mas é verão. Todo aquele calor era prenúncio do que estava por vir. Todo verão é assim. Sabemos disso há anos, mas sempre nos surpreendemos e boquiabertos, assistimos à tudo.
Em questões de segundos, tudo o cenário de calma e tranquilidade se vai.

Aquela brisa serena, da lugar ao vento assustador. As árvores, já não balançam mais com delicadeza, chacoalham com força e brutalidade, parecem querer quebrar, mas somente vergam, produzindo de suas folhas, um som amedrontador.

Aquele céu, antes claro e estrelado, agora esta tomado por nuvens, e sem ver as cores delas, certamente sabemos que são negras. A lua desapareceu, como se soubesse que o perigo estava por vir, e então se foi, levando consigo, todas as estrelas. Os pequeninos insetos, também perceberam antes, e sorrateiramente, pararam a sinfônia e foram-se também.

Antes fosse festa, mas não é. Raios, como flashes fotográficos, cruzam o céu, deixando o clarão e fazendo um estrondo de tremer as paredes. Mete medo em todos. A chuva, então cai abundante, sem sequer tomar conhecimento de nada e de ninguém. Impera, singular, somente com seus fiéis batedores vento e raio. Em instantes, já se formam poças gigantescas de água.

Poderia ser assim, tenebroso e assustador. Mas não é.

A beleza da chuva, que afastou o calor, e trouxe o frescor. Que levantou o cheiro bom de terra e o perfume do mato molhado. Que águou as plantas, que se embebedaram da mais pura água, e sorrirão no amanhecer felizes.

A água que cai produz um som único, de gotas, que a cada batida, fazem ondas sonoras singulares e irreprodutíveis, afinal cada gota é única, e se espatifa nos lugares mais diversos, de diferentes texturas e solidez. Nas poças então, é mágico ver as pequeninas gotas se partirem, no encontro delas com elas mesmas, e em uma progessão matemática, se partirem repetidamente, e acabam por fazer um maravilhoso desenho na poça, que agora é um quadro.

O raio que corta o céu escuro, ilumina tudo, parecendo os mais perfeitos efeitos especiais de superprodução holywoodiana, que nunca chegarão perto desta plasticidade sem precedentes. Rasga o céu de ponta a ponta, lembrando, como se fosse o negativo, do maravilhoso quadro de Miró, Linhas Negras.

Ao final do clarão, o estrondo que agora não é mais assustador, afinal a semelhança dele com o tímpano da sinfônica é inevitável.

A música esta lá. A beleza também. Somente o olhar foi que mudou.

Fernando Katayama – março 2005

Mais de Mil Palhaços no Salão

Estou com cara de desconfiado. Olho para cima. Observo os cantos. Espelhos, há sempre alguma coisa neles, além de refletir minha cara de ué. Pode ser atrás de um quadro cubista de Picasso.

Não sei. Mas tem que estar em algum lugar, mas onde? Será que esta atrás da samambaia?
Meu deus! Cadê a câmera? Minha cara continua de espanto e estranheza. Ainda olho pros cantos desconfiado. Tem que ter alguma coisa nisso tudo aí, alguém esta rindo muito.

Ah, vocês estão pensando que estou falando do conto do Orson Wells, Big Brother, ou não, pior, vocês estão achando que estou falando do programa honônimo, mais um lixo da televisão? Não, não é desse! Estou me referindo a coisa pior, as “pegadinhas”. Aquele tipo de “brincadeira” onde um fulano qualquer é feito de otário e tem uma câmera em algum lugar, filmando o “idiota” ser humilhado, passado para trás, ridicularizado e por ai vai.

É assim que todos nós ficamos, igualzinho nas pegadinhas dos programas de baixaria. Eu, você, todos nós brasileiros. E ficamos pior, inoperantes diante de tal situação. Que situação?

Um cara de gravata vermelha, paletó preto, meio calvo, cabelo branco, que esta sentado em uma poltronona, pra lá de confortável, lá na Câmera dos Deputados, e resolveu, com justivicativas vans, aumentar o próprio sálario. Um tal Severino. E tem os que vão à televisão, falar de equiparação, afinal, os salários deles estavam desequiparados! Mas tenho que concordar que os salários deles já estavam mesmo desequiparados. Desequiparados com o meu, o seu, com o da grande maioria da população brasileira.

Os números são assustadores, dá mais medo que o “tunel do horror” de qualquer parque de diversões, porque esses caras, só podem estar brincando. Alguns números, para dar uma idéia mais substânciosa ao assunto, são exorbitantes, isso sem falar depois, do efeito cascata que isso trará aos cofres da Nação e lógico no nosso bolso.

Para ter uma idéia, o mísero salário de um deputado é entrono de R$ 12.800,00, caros amigos, isso é uma minharia, não é mesmo? Passará para coisa como R$ 21.500.00! O aumento em torno de 70%! Mas não é só isso (lembra-me até aquele 1406, que sempre dá mais alguma coisa), o aumento reflete também para as verbas dos gabinetes passou de R$ 35.000 para R$ 50.000. E não para por ai, lembra do efeito cascata? Pois é, existe um repasse feito ao outros deputados estaduais de 75%, passando então de R$ 9.500.00 para R$ 16.000.00. Tudo votado com a máxima urgência! As coisas importantes para a Nação, que fiquem para depois. Esqueci de dizer que isso representará aos cofres, uma sifra entorno, não se assustem, de R$ 1.5 bilhão de reais.[1]

Isso tudo por uma equiparação. Enquanto isso, os salários dos executivos, que administram empresas, que acabam gerando empregos, trazendo dinheiro para a Nação, subiu 9.5%, no ano passado e a previsão deste ano não passa de 8%, e é considerado um sálario muito bom, mas muito bom mesmo, R$ 10.000. É isso sim, equiparação, o salário minímo de, vai lá, 300 contos.[2]

Lembrei de uma música, que se não me engano, é dos Paralamas, e fala mais ou menos assim: “...Luis Inácio avisou, são trezendo picaretas...”, mas acho que dessa vez, ele não avisou ou não quis avisar.

É... dizem que o Brasil só começa depois do carnaval. O carnaval acabou, mas festa não. E a marchinha ainda continua “mais de mil palhaços no salão...”. Só não sei se, os palhaços somos nós ou eles.

Por Fernando Katayama Fev/2005
Fontes
[1] – Jornal Folha de São Paulo de 24 e 25 de fevereiro de 2005
[2] – Revista VOCÊ S.A., fervereiro de 2005, edição 80, pág27

Domingo 13 de Fevereiro

Domingo. Dia de sol sem uma única nuvem no céu. Estava espetacular. Outra descrição seria no mínimo, incabível e injusta. Não sabia se iria ao clube, ao estádio, ver meu time jogar a peleja da semana ou simplesmente ficar em casa e ver o dia passar. Como de costume fui por água na chaleira, era merecido o café fresco pela manhã.

Nada parecia poderia estragar aquele dia, muito menos, aquele momento. Único. Céu azul, frescor da manhã, o verde das árvores, os pássaros, o sol ainda fresco. Cheiro de manhã de domingo! A chaleira apitava, era a água fervendo. Café no coador. Água quente. Aroma inconfundível. Era manhã de domingo.

Peguei o jornal, renomado periódico nacional, conceituado e agarrado com a verdade. O jornal de domingo sempre é mais corrupto, mais folhas. Pensei “quem sabe lerei por inteiro com o meu café ou então, na rede da varanda...”. Estava enrolado, afinal, é mais fácil para o moleque do jornal, arremessá-lo em minha porta. Abro-o lentamente, e uma estranha sensação, tomou lugar do meu café de coador na minha barriga ainda em jejum. Era o prenúncio que alguma coisa estava por vir.

De repente, ah! Um susto terrível. Na primeira página, sim senhor, primeira página uma fotografia grotesca tomava quase a metade, e não só isso, a manchete, logo a cima, era desastrosa! O que não poderia acontecer, aconteceu. Tudo começou a ficar cinza, nuvens negras, o sol, cadê? Já era o domingo.

Ah... se isso fosse somente uma crônica. Não é. É a dura realidade do nosso país. Realidade nacional. Meu Deus! Estampado em letra garrafais, serifadas, para dar mais credibilidade a notícia, e como se não bastasse, em negrito. É em negrito, lá no alto da primeira página “MINISTROS EMBOLSAM DIÁRIAS INDEVIDAS”. E logo a baixo, a fotografia no mínimo, feia. O Ministro da Cultura sendo depilado. Não estou enganado não, é sim senhor, o Ministro da Cultura. Ministro, aquele que tem um ministério e é responsável por representar as vontades legítimas do povo. Só com a manchete já daria enjôo, mas com a fotografia junto... sorte minha não ter comido nada.

Um frio enorme me deu na barriga. Lá na minha barriga de novo, e olha, não tenho pança não! Um Ministro sendo depilado e estampado na primeira página? Por mais liberal que eu seja, e sou, não da para engolir isso. Ministro é Ministro, tem até tratamento próprio, como aquele velhinho que hoje mal fala, a sua Santidade. Ministro tem que se dar o respeito, se colocar no lugar de representante da Nação. Representa eu, você, ele, o outro, todos nós. Você gosta de ser apresentando em situações íntimas? Para piorar, lá dentro no caderno, tinha mais. Nem li de vergonha e indignação. Para que saber se o Ministro depila a perna, o sovaco ou o saco? Isso é problema dele, intimidade dele. Talvez se nosso Ministro fosse só músico tropicalista, ainda vá lá, tudo bem, um ato de mostrar a cultura hippie e rebelde de 60 ainda vive, mas meu senhor, o Ministro? E não me venha falar do tal metrossexual, que isso é outra coisa. Tenha santa paciência. Pior é saber que ele leva ti-ti-ti para isso, ti-ti-ti para aquilo, e nossa cultura? Leva o que? Aliás cadê?

Educação, jajá vão perguntar pra que? Já que inglês para diplomata nem é importante... Talvez em mais alguns dias, ou no próximo domingo, saia uma reportagem de uma folha, dizendo como é que o Ministro fulano de tal toma banho ou então, pior, como é que o Ministro da Fazenda faz sexo, porque “foder”, nós já sabemos como é.

Ah! Se fosse só tudo isso! Não é! Lembra da manchete do jornal, que citei lá em cima? Pois é, nosso Ministro Depilado da Cultura, não se depila como uma mulher qualquer, que vai ao salão mais próximo ou de sua preferência, ou então em casa mesmo ela faz, ali na hora do banho, não... Ele manda buscar, no Rio de Janeiro, a mocinha que faz serviço para ele. E a manchete fala, “Ministros embolsam diárias indevidas”, só para lembrar.

Cheguei a pensar que era brincadeira do jornal, mas como disse lá no começo, é um jornal que se apresenta comprometido com a verdade.

E quem paga isso tudo? Eu, você, o outro menos ele! Me dá nervoso de nos vermos nessa situação caótica e constrangedora. Ministros que roubam, conchavos escancarados, impunidade pra cá e pra lá, maus exemplos do mais alto escalão, representante da Nação que joga papel no chão ou que se depilam para os jornais, é bom dizer que não tenho nada contra depilar, mas tenho contra o Ministro se colocar em uma situação dessa, e depois sair na rua e ver o povo miserável, não só de dinheiro, mas de formação. Assim estamos cavando nossa própria cova. Ou será que já morremos e só nos falta enterrar?

A Cúpula tem que saber que é exemplo, e que como exemplo é sempre seguido. Ser exemplo de uma Nação desguarnecida de heróis não é uma tarefa fácil, mas quem se coloca nessa posição, sabe o que espera! Precisamos de exemplos de cidadania, respeito, verdade, honestidade, educação! A nossa guerra para isso será longa e com muitas baixas, talvez eu mesmo nem veja o final dela, isto é, se começarmos agora, pelos nosso maiores exemplos, parece-me que as coisas, só vão piorar.

[explicando: domingo dia 13 de fevereiro de 2005, o Jornal Folha de São Paulo, publicou a manchete da sua primeira página, “Ministros embolsam verbas indevidas”, e logo abaixo, uma foto ilustrando a reportagem da repórter/colunista, Mônica Bergamo, que mostra o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, sendo depilado, e que no caderno de dentro, entra com detalhes e mais fotos]

Por Fernando Katayama, 14 de fevereiro de 20005

O Touro e o Diabo

A arena esta cheia. Uma expectativa do que há por vir. Vibrantes esperam todos para que tudo comece. Olhos arregalados. Suor que escorre pelo rosto. Roupas impecáveis não escondem o frio no estômago. O sol brilha, parece querer iluminar o grande espetáculo.

De um lado, ela toda dourada. Brilhos, cores, o predominante ouro. Capa vermelha. Essa roupa justa realça toda a beleza do corpo curvilíneo. É possível ver por de trás desta armadura dourada, toda a beleza da mulher. Toda sua delicadeza e sua fragilidade. Suas curvas são maravilhosas, há delicadeza e mistério. A suavidade da luz que é refletida e cria uma penumbra doce. Tudo isso não afasta o olhar penetrante. Forte e ao mesmo tempo tenro. Disposta ali, a enfrentar a fera.

Sem aparentemente sentir medo, impressiona com seu pequeno tamanho. Desarmada, parada espera, calmamente, o que virá.

Uma pesada porta de madeira é aberta. Sai de dentro um animal bufante. Gigante, com mais de tonelada. O nariz transpira ofegante. Um par de chifres. Músculos, e que músculos, se contraem. O rabo abana pouco convidativo e sua pata arrasta a areia.

Meteria medo em qualquer ser humano.

Ela continua ali, parada, a espera.

Como a areia do chão, todos estão sedentos por sangue, e pouco importa de quem seja.
Olham-se nos olhos. Talvez, prefeririam não entrar em combate. É um momento de diplomacia. Não há acordo. O enfrentamento é inevitável.

O silêncio é quebrado pela doce voz de Elis. Torna tudo mais belo e calmo.

O que é pura tensão se dissolve com a calma e beleza da música. O que era violento passa a ser lindo. Movimentos delicados, as curvas feitas, fazem parecer um balé. A câmera lenta mostra a velocidade do espetáculo. Tudo que é rápido é mostrado lento. Cada passo, cada desvio, cada giro. Rodopia em torno da fera, aquela pequena pessoa. Sente-se o temor.

A bela parece estar vendendo a fera. Ferido o animal forte não desiste. O sangue já pinga.
Por um instante há um silencio. Não há movimento. O ar pára nos pulmões. Nossos, deles de todos.

Ela se rende. O animal chifrudo percebe e ataca. A morte é eminente.

Um suspiro toma conta. Silêncio é a resposta, para uns a vibração da morte, para outros, o medo de morrer.

Esta é uma cena do maravilhoso filme de Pedro Almodóvar “Fale com ela”.

Contudo me indago sobre o que é isso tudo.

Seria o touro, o próprio diabo? Animal de cifres. Amedrontador. Grande. Seu rabo abana. Procura as fraquezas e ataca.Vive no caldeirão, rodeado de pessoas que tem ansiedade para a morte. Difere-se poupo do animal descrito acima.

Ela em seu papel assume seu lado masculino, deixa de lado a mulher para incorporar o homem aparentemente imbatível. Minutos antes havia corrido de uma cobra, logicamente objeto fálico, porem é salva por um homem, que por mais homem que seja, tem seu lado feminino mostrado, mas como todo protetor, enfrenta o réptil de algumas gramas.

Mesmo querendo mostra-se forte naquele momento, ela sente que ali, diante do touro, seu inimigo, algo é maior. Seus tormentos e angustias são mais fortes. O diabo se contorce dentro de seu coração. Sua alma não esta tranqüila. Sua mente confusa enxerga embaçado. Toda suavidade e beleza desaparecem. A Força some. O Medo transborda. O sangue que corria quente, gela. Medo.

Medo de seus traumas. Medo de sua vida. Medo de vivê-la inteira, intensa e por completo. Medo da felicidade que pode escapar das mãos. Medo de assumir suas próprias angustias. Medo de ser feliz.

Seu maior oponente esta no coração, o touro passa a ser pequeno.

Serve como fuga. Rende-se. Desiste.

Doa-se ao Diabo, que a leva, sem dó ou piedade. Inferno, casa dos covardes.

Fernando Katayama set/2004

Miopia Vermelha

Assisti Olga. Teoria marxista. O vermelho comunista. Rebeldia. À vontade da luta. Pelo ideal. Pelo estado. Pelo blá blá blá da ditadura comunista. Do sistema já falido. O filme em si, não me tocou.

A apelação para o melodrama, o tom de discurso radical, uma história sobre o velho comunismo vermelho, da coluna Prestes, a revolução que aqui nunca aconteceu.

Os problemas que ainda estão aqui, nada disso, me chamou a atenção. Ver a dureza nazista, apoiada por Vargas, que era também um ditador, que, pelo fordismo, mudou de lado. Cenas da dor do olhar da criança amamentada que chora aos prantos o colo da mãe. Nada disso é novidade.

A realidade de hoje, mundo muito mais veloz e violento, de guerras ao vivo e on-line. Das tragédias do cotidiano. Isso não choca mais.

Porem uma cena, me chamou a atenção. Pequena sutileza de um olhar.

Nessa uma cena, que achei um tanto piegas, com a luz e penumbra, trancados na cabine aristocrata de um navio, os personagens se dissolvem, sob a luz dura e prateada. Falam de amor e paixão. E menosprezam o sentimento, fogem dele com medo do amanhã.

De um lado o homem, sem nunca ter se dado à chance de amar, de outro a mulher, que por sua vez, também se nega a amar. Ideais são mais importantes que a própria felicidade. Mas o mais inquietante é a renúncia de um para o outro mesmo quando um, este, disposto a deixar tudo para seguir com o grande amor, mas isso, é então negado. Negado por ambas as partes, uma que não aceita a responsabilidade dessa atitude e do outro que não luta e abre mão da sua própria felicidade, justificando amor ao outro. Nesse filme é a mulher, que nega. Ah! Sempre a mulher, centro das atenções masculinas, que não enfrenta o medo, mas enfrenta a dor do parto, que talvez seja menor que a dor da angústia dessa desistência. Mas poderia ser o homem, tanto faz.

Deixando de lado o movimento comunista ou qualquer ou discurso político, essa é uma cena que vivemos a todo momento.

Sempre o medo. Medo de poder sentir o sentimento pleno e sua liberdade. Medo de poder se entregar. Medo de deixar o outro tomar conta das hemoglobinas e transformar o oxigênio das veias. Medo de poder abandonar os dogmas antigos por um amor verdadeiro. Medo talvez, de se sentir frágil. Medo de poder ser forte a agüentar o amor do outro. Medo de assumir que o outro te ama. Medo de perder esse amor. Mas o verdadeiro amor é a liberdade. E a verdadeira coragem vem do medo.

Vejo assim:

Ninguém acredita que é possível modificar o futuro, podendo se entregar à paixão, pois temos que pensar, maldito pensar, raciocínio lógico intransigente, que nos roubou o mais belo sentimento, o simples sentir. Agir com o instinto, passa a ser piegas e banal, e nega-se então o que temos dentro de nos mesmos, o mais puro sentimento e sua maior realidade.

Acreditamos, que por valores inseridos dentro de nós, temos que ter a vida ajustada para poder, ai sim, amar. Ter uma profissão, dinheiro, estabilidade, são pré-requisitos para o amor.

Coisa mais estúpida.

Será que o inverso não pode ser verdadeiro? Será que um homem não pode fazer a total diferença pra uma mulher e a mulher não fará a diferença por esse homem? Será que a mudança da vida não pode vir da conexão perfeita da energia humana? Não será substancial a vida a troca de amor em sua plenitude?

Teria Prestes morrido em sua cela e Olga em uma câmera de gás, se eles tivessem seguido o instinto conector entre eles, e não terem seguido a razão pelo ideal? Negaram-se a serem felizes juntos. Negaram-se a amar plenamente. Negaram-se à abandonar suas ideologias, seus pré-conceitos. Negaram-se a se ver. Morreram.

Vejo inúmeras pessoas negando seus corações por suas convicções de verdade. Por achar que a felicidade é impossível. Que o amor é algo hipotético. Por medo das mudanças radicais. Por medo de perder. Por medo de ceder. Por se acharem fracos. Por querer estar “estável” para sentir-se livre para amar. Por medo de poder assumir o outro como o complemento que estava faltando.

Esquecem-se no entanto, que tudo pode mudar. Que um amor pode ser revelador. Pode ser impulsionador. Pode ser energia pura. Pode transformar o mais feio no que há de mais belo. Pode ter força para fazer o que antes era meramente impossível. O amor quebra as barreiras do limite e nos leva ao desconhecido.

Que o vermelho agora não é mais uma bandeira, é um sentimento forte. É o sangue que corre apaixonado pela vida dentro do corpo. Borbulha. É a impulsão de um para o outro. É percorrer junto a grande viagem chamada felicidade, e poder compartilhar com quem se ama. Sem medo do que esta por vir, e também pouco importa. Mas a certeza de poder viver a vida intensamente, com toda a força e magia nela inerente, e estar pleno durante todo esse percurso e não somente se sentir pleno, perante a morte, e pensar como poderia ter sido feliz.

Por Fernando Katayama 30 de Agosto de 2004

é assim...

é assim... eu e a si...

aconteceu assim, meio sem querer.
era pra ser um cafezinho
e virou
breakfast.
Coracao maior que o peito.
Bointa,
olhos de chines,
cabelo de holandes.
"ah.. que bonita namorada voce poderia ser.."
e é!

todo dia,
que até, de noite, é dia.
e quando falta no dia,
tudo fica faltando.
o sorriso moleque e o nhe-nhe-nhe manhoso.
Diversão é à parte, pura arte, que quase toma a parte toda.

é assim... eu e a Si...
nenina sempre transparente pra mim.
que admiro.
que conquisto todo dia.
e que me encanta a cada dia.
que me ensina enquanto aprende comigo.
que me salva sem saber que salva.
que é o colo quente quando a cabeça pesa
que e a leveza quando tudo pesa.

é assim, eu e a si...
se contar por risadas
por gargalhadas
vai perder a conta

e é assim...
eu e a si
livre
leve
como deve ser!

e é pra ser assim,
sendo
feliz!

dedicado à minha namorada Simone, que como por encanto apareceu
Fernando Katayama Jan/2005